Como a fauna brasileira se adapta às florestas plantadas que movimentam R$ 240 bilhões

Floresta de eucalipto da Eldorado Brasil Divulgação O setor de árvores cultivadas no Brasil atingiu receita bruta de R$ 240 bilhões e responde por recordes de exportação em 2024. Segundo o Relatório Anual da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), com 10,5 milhões de hectares de plantios, principalmente de eucalipto e pinus, o país lidera a produção global de celulose. A imensa floresta plantada no país, no entanto, não gera apenas impacto econômico, mas afeta diretamente o meio ambiente. 📱 Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp Para além das cifras bilionárias, a escala dessas florestas plantadas impôs um desafio biológico: a necessidade de adaptação da vida selvagem a uma paisagem transformada. O que antes era rotulado como "deserto verde" tem se revelado, sob a ótica de novas pesquisas e manejos, uma complexa rede de convivência, onde a fauna silvestre aprendeu a navegar entre os talhões comerciais para garantir sua sobrevivência e o trânsito entre fragmentos de mata nativa. VIU ISSO? Planta usada no candomblé motivou pesquisa científica sobre o tratamento do câncer Biólogo registra encontro raro entre paca e predador na Serra Gaúcha Águia ataca drone durante monitoramento em reserva na Colômbia A arquitetura da sobrevivência Tamanduá-mirim soetjipto/ iNaturalist O segredo dessa coexistência não reside apenas na presença das árvores, mas na forma como elas são dispostas no território. O avanço da silvicultura moderna no Brasil substituiu os antigos blocos maciços pelo chamado sistema em mosaico. Nesse modelo, as plantações de eucalipto são intercaladas com áreas de preservação permanente (APPs) e reservas legais, que somam hoje cerca de 6,7 milhões de hectares conservados pelas empresas do setor. Essa configuração cria corredores ecológicos que conectam fragmentos de vegetação original. Para a fauna, o eucaliptal deixou de ser uma barreira para se tornar uma área de passagem e, em muitos casos, de moradia temporária. De acordo com o Relatório Anual da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá) 2025, o monitoramento constante das empresas já identificou mais de 8 mil espécies de animais e plantas circulando nesses ambientes, incluindo predadores de topo que dependem de grandes áreas de vida. Floresta de Eucalipto Arquivo "As florestas plantadas são uma realidade e, para quem trabalha com conservação ambiental é preciso encarar essa questão. Em um cenário ideal, não existiriam florestas manejadas pelo ser humano, não existiriam plantações, pecuária de larga escala, nada disso. Mas a realidade é outra e existe importância vital em cada setor. O desafio, portanto é: como conservar a biodiversidade em meio a esse cenário?", questiona o biólogo Mauro José, especializado em conservação ambiental. Mauro reforça que ainda existe um longo caminho para o cenário ideal. "Essas florestas podem aumentar a prevalência de espécies generalistas e elas jamais substituirão florestas nativas. Ainda existe um longo caminho de estudos e testes para melhorar a coexistência da fauna e flora". A adaptação da fauna Onça-pintada flagrada no Brasil soti / iNaturalist O especialista diz que não dá para dizer que a natureza aceitou a nova realidade, mas sim que ela precisou se adaptar a ela. Estudos da Embrapa Florestas e pesquisas publicadas pela Sociedade de Ecologia do Brasil (SEB) demonstram que a biodiversidade prospera quando o manejo permite o desenvolvimento do sub-bosque — a vegetação nativa que cresce sob a copa dos eucaliptos. Essa "camada de baixo" oferece abrigo a pequenos mamíferos e insetos, que por sua vez atraem aves e predadores maiores. Um levantamento da Casa da Floresta no Mato Grosso do Sul revelou que a presença de vegetação nativa rasteira dentro dos plantios é o fator determinante para que espécies como tamanduás-bandeira e lobos-guarás utilizem o eucaliptal como refúgio térmico e rota de caça. Veja o que é destaque no g1 hoje: Veja os vídeos que estão em alta no g1 "A silvicultura brasileira tem uma posição única porque fomos forçados a aprender a produzir com responsabilidade", analisa Augusto Massaro, diretor administrativo da Una Florestal, empresa de Araraquara (SP) especializada em gestão e tecnologia florestal. "O manejo hoje é muito mais sensível ao que acontece no chão da floresta. Não se trata apenas de colher madeira, mas de entender como esse ciclo afeta o bioma ao redor." A adaptação das árvores às mudanças climáticas Plantio de eucalipto em Três Lagoas (MS) Eldorado Brasil/ Reprodução A adaptação mencionada não é exclusividade dos bichos; a própria árvore precisou mudar. Com o agravamento da crise climática, o setor de silvicultura investe bilhões em pesquisa e desenvolvimento para criar clones mais resilientes. O desafio atual não é apenas crescer rápido, mas suportar períodos prolongados de seca e ataques de pragas que não existiam décadas atrás. "O grande desafio hoje é a adaptação climática. Atender à demanda do mercado é uma questão de escala, mas adaptar materiais genéticos às novas condições de chuva e temperatura é o que garante a sustentabilidade no longo prazo", explica Massaro. Para ele, o viveiro moderno tornou-se um centro de inteligência. "Trabalhamos para desenvolver clones que sejam eficientes no uso da água e resistentes. A sustentabilidade da floresta começa antes mesmo do plantio, na escolha do material que melhor se integra àquele ecossistema específico." Viveiro de mudas parceiro da empresa Una Florestal unaflorestal.com.br O impacto ambiental em perspectiva É inegável que a substituição de campos nativos por monoculturas altera a dinâmica original do solo e da água. Contudo, pesquisadores da Embrapa também argumentam que o impacto deve ser analisado de forma comparativa: as florestas plantadas retiram a pressão sobre as matas nativas, que deixam de ser a fonte primária de madeira e carvão vegetal. "Do ponto de vista da sustentabilidade, é melhor termos plantações que obedeçam às regras de conservação e que gerem impactos controlados ou 'previstos', do que arriscarmos. O desmatamento nativo ainda é um problema grave no Brasil, pois ele ainda 'compensa' para quem age fora da lei. Se o investimento em florestas plantadas com responsabilidade fosse mais amplo, talvez a atividade ilegal em áreas de preservação diminuísse", reforça o biólogo Mauro José. O biólogo admite que é preciso intensificar os estudos e pesquisas para garantir a sobrevivência da fauna e flora nativas brasileiras. "Para isso, é necessário não pensar apenas nos ganhos materiais, mas também em como parte de todo esse dinheiro pode ser utilizada no incentivo de novas pesquisas e ações a fim de um desenvolvimento biosustentável". Segundo o Ibá, estima-se que as áreas cultivadas e conservadas pelas empresas do ramo estoquem cerca de 4,5 bilhões de toneladas de CO2 equivalente, um serviço ambiental crucial para as metas brasileiras de descarbonização. O desafio para os próximos anos será manter o ritmo de crescimento — a produção de celulose já ultrapassa 25 milhões de toneladas anuais — sem perder de vista o monitoramento fino da fauna e da biodiversidade nas florestas. 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