Nova espécie de flor descoberta no Brasil já nasce ameaçada de extinção

Uma foto levou à descoberta de uma nova espécie de flor no Brasil; ela já está ameaçada Uma caminhada por uma trilha de Lauro Müller, no Sul de Santa Catarina, acabou resultando na descoberta de uma nova espécie de planta para a ciência. Fotografias tiradas na região revelaram a nova espécies; veja a história completa abaixo. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram A flor, batizada de Alstroemeria durantei, recebeu esse nome em homenagem ao guia de turismo, observador de aves e fotógrafo da natureza João Paulo Durante, responsável pelos primeiros registros que levaram à descrição científica da espécie. A nova planta foi oficialmente apresentada em um artigo publicado na revista científica Phytotaxa. O estudo foi conduzido pelos botânicos Júlia Gava Sandrini, Luís Adriano Funez e colaboradores, que comprovaram que a espécie encontrada em Santa Catarina, Paraná e São Paulo era diferente da Alstroemeria cunha, com a qual vinha sendo confundida há décadas em coleções botânicas. Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: FOTOS: Estudo reúne imagens inéditas do ‘cachorro fantasma’, um dos canídeos mais raros da Amazônia VÍDEO: Conheça as cavernas e os registros dos primeiros povos de Arcos (MG) EDUCAÇÃO: Espaço no interior de SP usa trilhas e observação de aves para aproximar pessoas da ciência A Alstroemeria durantei foi descrita pela ciência em 2026 e ocorre no Sul do Brasil João Paulo Durante Uma descoberta que começou com uma fotografia João Paulo Durante conta que encontrou a planta em 2021, durante uma observação de aves na Trilha do Cabo Aéreo, em Lauro Müller. “Além de observador de aves, sou também um apaixonado pela flora de Santa Catarina. A planta, com suas flores vermelhas vibrantes, me chamou a atenção e registrei como de costume”, relembra. Os registros ficaram guardados por algum tempo até que Durante compartilhou fotografias e observações sobre a flora regional com o botânico Luís Adriano Funez, curador do Herbário Barbosa Rodrigues. As flores exibem um degradê de vermelho, amarelo e verde, característica que ajudou a diferenciá-la de espécies semelhantes João Paulo Durante “Em 2023 selecionei algumas plantinhas para ele me ajudar com as identificações. Entre elas estava a alstroeméria, conhecida popularmente como astromélia, que ele achou diferente e interessante”, conta. A partir dali começou uma investigação científica que envolveria coletas em campo, análise de herbários e comparações morfológicas detalhadas. O caminho até a nova espécie Segundo a bióloga e doutoranda Júlia Gava Sandrini, o processo começou justamente após Funez perceber que a planta fotografada por Durante apresentava características incomuns. Os pesquisadores consultaram herbários físicos e bases de dados de diversas regiões do país para comparar exemplares. Nessas coleções, a planta aparecia identificada como Alstroemeria cunha. No entanto, as análises mostraram diferenças consistentes. “Nós começamos uma série de investigações para verificar se aquela identificação realmente correspondia à planta que estávamos observando. Fizemos comparações entre exemplares de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro”, explica Júlia. Além das diferenças visuais, a equipe utilizou análises morfométricas, que consistem na medição detalhada de estruturas das flores, acompanhadas por testes estatísticos. A planta foi encontrada em áreas abertas e bordas de mata em Santa Catarina, Paraná e São Paulo João Paulo Durante O estudo mostrou que as flores da nova espécie possuem tépalas mais estreitas e alongadas e uma coloração característica. Enquanto Alstroemeria cunha apresenta flores predominantemente vermelhas ou alaranjadas, A. durantei possui uma transição de cores que vai do vermelho para o amarelo e o verde nas extremidades das pétalas. O estudo mostrou que as flores da nova espécie possuem tépalas – estruturas florais semelhantes às pétalas – mais estreitas e alongadas, além de uma coloração característica. Enquanto Alstroemeria cunha apresenta flores predominantemente vermelhas ou alaranjadas, A. durantei exibe uma transição de cores que vai do vermelho, na base, para o amarelo e o verde nas extremidades dessas estruturas florais. O papel dos herbários Para chegar à conclusão de que se tratava de uma espécie inédita, os pesquisadores recorreram a uma ferramenta fundamental da taxonomia: os herbários. “Os herbários guardam exemplares coletados em diferentes épocas e locais. Eles permitem comparar plantas atuais com materiais históricos, alguns coletados há mais de cem anos”, explica Luís Adriano Funez. Segundo ele, sem essas coleções científicas seria muito mais difícil comprovar que uma planta representa uma espécie diferente. “Fotografias são importantes, mas muitas vezes não registram todos os detalhes necessários para uma identificação precisa. O herbário fornece uma base sólida para esse trabalho minucioso”, afirma. Ciência cidadã para revelar a biodiversidade Para os pesquisadores, a descoberta também mostra a importância da participação de observadores da natureza na produção de conhecimento científico. “Nós observadores da natureza e cidadãos cientistas desempenhamos um papel muito importante em descobertas biológicas e na conservação ambiental. Somos uma imensa rede de olhos e ouvidos espalhados pelo campo”, diz Durante. Segundo ele, registros feitos por pessoas que frequentam áreas naturais podem revelar espécies raras, novos comportamentos de animais e até organismos desconhecidos pela ciência. A espécie recebeu o nome durantei em homenagem ao observador da natureza João Paulo Durante João Paulo Durante Uma homenagem emocionante A homenagem ao observador catarinense foi mantida em segredo até a publicação do artigo científico. Durante conta que recebeu uma mensagem da botânica Júlia Gava Sandrini na noite de 26 de maio. “Ela me enviou o artigo e uma foto da planta. Quando vi que eram os meus registros, fui procurar qual tinha sido o nome escolhido para a espécie. Quando li Alstroemeria durantei, meu coração acelerou e comecei a chorar de emoção”. Para ele, o reconhecimento simboliza anos dedicados à observação e documentação da natureza. “Representa a importância de fazer com dedicação aquilo que eu gosto e de compartilhar experiências que criam vínculos e amizades tão significativas”. Pesquisadores apontam que a espécie já nasce ameaçada de extinção devido à distribuição restrita e à perda de habitat João Paulo Durante Uma espécie que já nasce ameaçada Apesar da celebração pela descoberta, os pesquisadores alertam que a nova espécie já pode ser considerada ameaçada de extinção. Atualmente, apenas uma das nove populações conhecidas ocorre dentro de uma unidade de conservação. As demais estão em áreas privadas, pastagens ou margens de estradas, locais sujeitos a roçadas e outras intervenções. “Muitas vezes a planta é cortada porque as pessoas não sabem que se trata de uma espécie rara e ameaçada. Ela consegue rebrotar, mas essas intervenções afetam seu ciclo de vida e sua reprodução”, explica Júlia. A pesquisadora destaca que ampliar áreas protegidas e promover ações de educação ambiental são medidas fundamentais para garantir a sobrevivência da espécie. Ainda há muito para descobrir A descoberta reforça que mesmo regiões relativamente bem estudadas continuam guardando surpresas. “Santa Catarina é um dos estados brasileiros com a flora mais bem conhecida, mas ainda encontramos espécies novas com frequência”, afirma Funez. Segundo ele, áreas de campos de altitude da Serra Catarinense estão entre os ambientes mais promissores para futuras descobertas.“Há muitas espécies pequenas, raras e restritas a determinadas regiões que ainda precisam ser estudadas”. Para João Paulo Durante, a descoberta é mais uma prova de que a biodiversidade brasileira ainda reserva inúmeros mistérios. “Acredito que ainda existam muitas espécies novas para serem descobertas dentro da flora de Santa Catarina e em todo o Brasil”. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente