Perseguida pelo ex, deixou cidade e filho para recomeçar a vida: 'perdi minha família'

14/08/2026 - 13:40  
Perseguida pelo ex, deixou cidade e filho para recomeçar a vida: 'perdi minha família'

Perseguida pelo ex, mulher teve que deixar cidade e filho para recomeçar a vida O relacionamento de Lana Hernandes começou como um conto de fadas. Flores, chocolates, demonstrações de carinho e a sensação de ter encontrado o homem ideal. Com o passar do tempo, porém, o que parecia cuidado se transformou em controle. 📱 Siga o g1 São Carlos e Araraquara no Instagram Aos poucos, ela deixou de ter autonomia sobre a própria rotina. O então marido passou a interferir nos lugares que frequentava, no trabalho, nas finanças e até no celular. Lana conta que um aparelho que havia recebido de presente tinha mecanismos de espionagem, como escuta e rastreamento. Lana faz parte das histórias contadas pela série especial “Dona Penha”, da EPTV, que marca os 20 anos da Lei Maria da Penha. Hoje, moradora de Araraquara (SP), ela fala sobre a violência que sofreu, mas também sobre o caminho que encontrou para sobreviver e recomeçar. "Eu me reinventei, foram 10 anos da minha vida, que eu perdi a minha família, que eu deixei meu filho", disse. Lana Hernandes atua hoje com mentora e auxilia mulheres vítimas de violência doméstica Reprodução EPTV Recomeçar longe Para conseguir romper definitivamente, Lana precisou tomar uma decisão difícil: deixar a cidade onde vivia e se mudar para Araraquara. A mudança significou abrir mão da rotina, da família, da cidade onde tinha construído sua vida e também da convivência diária com o filho. “Deixei muita coisa para trás. Família ficou, minha cidade, sua zona de conforto”, contou. Em Araraquara, ela chegou sem conhecer praticamente ninguém e precisou começar novamente. A mudança também trouxe dificuldades financeiras, já que chegou à cidade com uma carga horária de trabalho reduzida. Uma mulher que conheceu durante esse período acabou se tornando parte fundamental da rede de apoio. Lana conseguiu um lugar para ficar e encontrou acolhimento justamente quando mais precisava. Essa rede foi essencial para que ela pudesse se reorganizar e seguir em frente. Distância e culpa Apesar de ter conseguido sair da relação, Lana carrega uma das consequências mais difíceis da decisão: a distância do filho. Ela conta que deixou de participar da rotina que tinha com ele, como buscá-lo na escola, almoçar juntos e participar das reuniões. “Eu senti o doce amargo da maternidade à distância”, disse. A culpa ainda faz parte da história que ela conta, mas Lana também reconhece que precisava escolher entre permanecer naquela situação ou buscar uma forma de sobreviver e reconstruir a própria vida. “Eu espero que um dia ele me perdoe, que ele entenda que eu fiz essa escolha. Porque era isso ou talvez a minha ausência", contou. Lana recomeçou a vida em Araraquara para garantir a própria segurança longo do ex-companheiro Reprodução EPTV Leia também: VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: 'Dona Penha': entenda tipos de violência contra a mulher e como a Lei Maria da Penha se fortaleceu em 20 anos REGIÃO: Três cidades com mais feminicídios não têm Delegacia da Mulher no interior de SP; relembre casos EDUCAÇÃO: Escola forma jovens contra o machismo e violência contra a mulher no interior de SP Vida nova O recomeço não aconteceu de uma hora para outra. Lana precisou reconstruir a autoestima e reaprender a tomar decisões por conta própria. Hoje, ela atua como mentora corporativa e percorre diferentes lugares fazendo palestras sobre violência doméstica. A experiência que um dia foi motivo de vergonha passou a ser utilizada como ferramenta para ajudar outras mulheres. Ela conta que uma das maiores recompensas é encontrar mulheres que, depois de ouvir sua história, decidiram procurar ajuda, estudar, trabalhar ou romper relacionamentos abusivos. Lana também passou a experimentar coisas que antes não faziam parte de sua vida. Entre elas, o paraquedismo. O primeiro salto ganhou um significado simbólico. Para ela, era como deixar no avião a mulher que havia vivido aqueles 10 anos de violência. “Eu vou jogar aquela Lana, aquela antiga Lana do avião, e ela vai sem paraquedas. Até aqui eu chorei, até aqui eu me lamentei. A hora que eu tocar os meus pés no chão é uma vida nova", contou. Lana também passou a experimentar coisas que antes não faziam parte de sua vida. Entre elas, o paraquedismo. Arquivo pessoal Violência cíclica Em diferentes momentos, Lana tentou romper o relacionamento. Nessas ocasiões, porém, o comportamento do companheiro mudava. Depois das agressões e ameaças vinham pedidos de desculpas e períodos de aparente tranquilidade. Ela reconhece hoje esse movimento como o chamado ciclo da violência, marcado por fases de tensão, agressão e uma espécie de reconciliação, conhecida como “lua de mel”. Depois de um mês ou um mês e meio, a situação se repetia. A violência foi aumentando de intensidade. Lana conta que passou a desenvolver uma resistência maior às agressões, sem perceber que isso também contribuía para a escalada da violência. “O nível de resistência à dor, então ele sabe que até ali ele pode chegar. E aí, na próxima, não é o mesmo, é mais”, relatou. Cabelo cortado enquanto dormia Um dos episódios mais marcantes aconteceu por causa de uma crise de ciúmes. O homem acreditou que alguém havia passado a mão no cabelo de Lana. Durante a noite, enquanto ela dormia, ele cortou os cabelos dela. O episódio só foi conhecido pela família muito tempo depois. Para as pessoas que conviviam com Lana, a mudança parecia apenas uma decisão de visual porque ela não contou o que havia acontecido. A violência também começou a afetar sua saúde emocional. Vieram a vergonha, a negação e os questionamentos sobre como aquela situação havia se tornado parte de sua vida. “Você tem vergonha, você nega, você começa, na verdade, a apresentar alguns sinais de depressão. Por quê? A pergunta que ecoava na minha cabeça: como eu cheguei nisso?”, contou. Detalhe do colar que Lana carrega no peito com imagem do filho Reprodução EPTV Vulnerabilidade Lana comenta que um dos principais fatores que dificultavam a ruptura era a relação do agressor com o seu filho. Mesmo diante da violência, pensava se deveria perdoá-lo e preservar aquela convivência familiar. “Meu maior ponto de vulnerabilidade foi o carinho com que ele tratava meu filho”, afirmou. Essa dúvida fazia parte de um conjunto de fatores que, segundo especialistas ouvidos pela série 'Dona Penha', pode dificultar a saída de uma mulher de uma relação abusiva: dependência emocional e financeira, filhos, medo e insegurança. No caso de Lana, a violência também não terminou quando ela decidiu se afastar, porque começou a ser perseguida. Lana se mudou para Araraquara e hoje é mentora com palestras sobre violência contra a mulher Reprodução EPTV Perseguição Depois da separação, o agressor enviava fotos e vídeos que mostravam que sabia onde ela estava e acompanhava sua rotina. Lana conta que chegou a receber uma foto do próprio carro enquanto estava trabalhando. Em outra ocasião, recebeu uma imagem do filho sendo buscado na escola. A situação fez com que ela percebesse que continuava sendo monitorada mesmo depois de tentar reconstruir a própria vida. O comportamento é característico do crime de perseguição, conhecido como stalking, que passou a ser previsto na legislação brasileira em 2021. "Hoje eu corro por todos os lados com minha palestra alertando e mostrando pras mulheres que existge uma vida pós ( relacionamento)", finalizou. REVEJA VÍDEOS DA EPTV CENTRAL: Veja mais notícias da região no g1 São Carlos e Araraquara