10 de dezembro: o dia que Lutero queimou a bula papal
Há datas que parecem pequenas no calendário, mas que carregam um peso enorme na história da fé cristã. O dia 10 de dezembro de 1520 é uma delas. Foi nessa manhã fria de inverno, diante do portão de Elster, em Wittenberg, que Martinho Lutero lançou às chamas a bula papal Exsurge Domine, documento pelo qual o papa Leão X o intimava a se retratar e recolher seus escritos.
O gesto, que poderia parecer apenas um ato impensado de rebeldia, tornou-se marca definitiva da ruptura entre Lutero e Roma — e um símbolo de coragem diante de pressões religiosas e políticas avassaladoras.
Antes da fogueira
Em 1517, ao afixar as 95 Teses, Lutero pretendia reformar práticas da Igreja e abrir debate teológico, especialmente sobre indulgências. Mas a reação de Roma foi rápida: investigações, advertências e disputas públicas ocorreram nos anos seguintes. A tensão cresceu à medida que Lutero publicava obras que defendiam a centralidade das Escrituras, a autoridade de Cristo sobre a Igreja e a justificação pela fé.
Em 15 de junho de 1520, o papa Leão X publicou a bula Exsurge Domine, condenando 41 proposições atribuídas a Lutero e dando-lhe 60 dias para retratação. Caso contrário, seria excomungado.
Nos meses seguintes, Lutero escreveu vigorosamente explicando sua posição. Para ele, a bula não era apenas um documento disciplinar: era uma tentativa de sufocar a mensagem bíblica que estava sendo redescoberta e proclamada na Alemanha.
O dia da fogueira
Naquele dia, professores, estudantes e moradores se reuniram ao redor de uma grande pira. Um a um, livros de direito canônico, decretos e tratados papais foram lançados às chamas.
Por fim, Lutero ergueu a bula Exsurge Domine e disse algo que as fontes descrevem em variações, mas com o mesmo sentido: “Porque tu perturbaste a verdade de Deus, hoje o Senhor te consome. Ao fogo!”
O gesto não foi improvisado. Foi deliberado, público, consciente — e compreendido por seus contemporâneos como uma linha que não poderia mais ser desfeita.
As motivações reais de Lutero
Lutero não queimou a bula por vaidade, orgulho nem por desejo de revolta política. Suas motivações, expressas em seus escritos, foram:
1. A defesa da autoridade das Escrituras
Ele cria que a bula negava verdades claras da Bíblia sobre arrependimento, perdão e fé. Para Lutero, submeter-se significaria trair o Evangelho.
2. O combate ao abuso espiritual
Ele via o documento papal como instrumento de intimidação e controle, um meio de silenciar críticas legítimas e proteger práticas corruptas.
3. A consciência cativa de Deus
Sua frase mais célebre na Dieta de Worms, meses depois — “Minha consciência está cativa à Palavra de Deus” — já estava presente em sua postura naquele dia. Para ele, obedecer ao Evangelho valia mais do que qualquer autoridade humana.
4. A recusa em legitimar a violência simbólica da bula
A bula queimava seus escritos e seus argumentos. Lutero devolveu o gesto de modo simbólico, não por ódio, mas por coerência: se Roma rejeitava sua teologia, ele rejeitaria a autoridade de Roma.
A reação de Roma e da população
A resposta não demorou. Roma considerou o ato de Lutero um insulto direto à autoridade papal. Menos de um mês depois, em 3 de janeiro de 1521, a excomunhão foi formalizada pela bula Decet Romanum Pontificem. A ruptura estava consumada.

Entre a população, a reação foi mista. Entre estudantes e parte da população urbana, o gesto foi visto como libertador: um protesto contra abusos e uma afirmação de coragem intelectual. Entre autoridades políticas, gerou temor de desordem e instabilidade. Entre setores mais ligados à Igreja, foi encarado como heresia e afronta.
O fogo da fogueira se espalhou em forma de debates, tensões, polêmicas — e um movimento de renovação teológica que mudaria o cristianismo para sempre.
O que esse fato histórico nos ensina hoje?
Cinco séculos depois, o gesto de Lutero ainda nos provoca.
1. Coragem para confrontar abusos
Nem sempre a fé exige silêncio ou docilidade diante de estruturas injustas. Há momentos em que o cristão é chamado a dizer “não” — mesmo que custe reputação, segurança ou aceitação.
2. Submeter toda autoridade à Palavra de Deus
Lutero nos lembra que nenhuma instituição, por mais poderosa, está acima da Escritura. A fé reformada nasce desse princípio: Cristo é o cabeça da Igreja, e sua Palavra é a regra suprema.
3. A importância da consciência diante de Deus
A integridade espiritual é mais valiosa do que qualquer vantagem política. Lutero perdeu apoio político e segurança pessoal, mas preservou sua consciência e sua fidelidade a Cristo.
4. Discernimento sobre símbolos
Nem todo gesto forte deve ser repetido literalmente. A lição não é “queime o que discorda”, mas: defenda a verdade com clareza e coragem, mesmo quando isso exige se posicionar publicamente.

Um chamado à fidelidade
Quando pensamos nesse episódio, somos convidados a perguntar:
-
O que hoje ameaça a pureza da nossa fé?
-
De que formas nos calamos diante de injustiças por medo das consequências?
-
Onde precisamos colocar firmeza, coragem e fidelidade — não para confrontar por orgulho, mas por amor ao Evangelho?
A fogueira de 10 de dezembro de 1520 não é só um evento do passado. Ela é um símbolo de que há momentos em que a luz da verdade precisa brilhar mais forte do que o poder das estruturas.
Que nós, como Lutero, saibamos permanecer fiéis ao Evangelho, ainda que isso nos coloque diante do fogo.