Neste dia 25 de outubro, celebramos no Brasil o Dia da Democracia. E no coração da democracia moderna bate um pulso antigo, nascido muito antes dos parlamentos e das urnas: o pulso da dignidade humana revelada nas Escrituras.
A doutrina de que o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1:26) é, talvez, a mais revolucionária ideia já proclamada à face da Terra. Ela afirma que todo indivíduo, independentemente de origem, posição ou força, possui valor intrínseco diante do Criador.
A partir dessa convicção, o Ocidente começou a compreender que o poder não é um direito natural dos fortes, mas uma responsabilidade concedida para o serviço. Quando Lutero proclamou o sacerdócio universal dos crentes, e Calvino defendeu a autoridade limitada pelo bem comum, o mundo medieval começou a ruir. A Reforma abriu o caminho para um novo modo de pensar: se todos são igualmente responsáveis diante de Deus, também devem ser igualmente livres e responsáveis diante dos homens.
Liberdade e responsabilidade: duas faces da mesma moeda
A democracia moderna nasceu desse fermento espiritual. A ideia de liberdade individual — tão celebrada hoje — tem raízes no conceito bíblico de liberdade da consciência, segundo o qual ninguém pode ser forçado a crer. Calvino afirmava que “a consciência é o tribunal de Deus dentro do homem”. Dessa liberdade interior brotou a liberdade exterior: de culto, de expressão, de pensamento.
Calvino afirmava que “a consciência é o tribunal de Deus dentro do homem”; a ideia de liberdade individual tem raízes no conceito bíblico de liberdade de consciência
O protestantismo, ao insistir na leitura pessoal da Bíblia, sem intermediários infalíveis, formou gerações de homens e mulheres conscientes de seu dever de pensar e decidir. A educação, vista como meio de compreender as Escrituras, acabou se tornando também instrumento de cidadania. Assim, sem planejar uma revolução política, a fé cristã lançou os fundamentos morais da democracia moderna.
Lei, justiça e o limite do poder
Outro traço distintivo da herança cristã é a noção de que há uma lei acima dos homens. Desde os profetas do Antigo Testamento, a autoridade dos reis era confrontada pela voz da justiça divina. “Buscai o direito, repreendei o opressor” (Isaías 1:17) ecoa como um grito perene contra toda forma de tirania.
Desse princípio nasceu o que chamamos hoje de Estado de Direito. A autoridade política, na visão reformada, é legítima apenas quando serve à justiça e promove o bem comum. Nenhum poder humano é absoluto, porque só Cristo é Rei absoluto. Toda forma de governo — monarquia, república ou democracia — é provisória, sujeita ao juízo do Senhor da História.
A democracia como campo da graça comum
Por isso, o cristão não idolatra a democracia, mas a reconhece como uma bênção providencial. Ela é o solo em que florescem a liberdade, a justiça e o diálogo, permitindo que o Evangelho seja anunciado sem coerção.
Na democracia, até o pecado tem espaço — e isso, paradoxalmente, expressa a paciência divina. Deus não governa o mundo pela força da espada, mas pela força da verdade.
Estadista holandês e teólogo, Abraham Kuyper afirmava: “não há um centímetro quadrado da existência humana sobre o qual Cristo não clame: É meu!”
O regime democrático espelha, em escala humana, esse mesmo princípio: a convivência entre o certo e o errado, o justo e o injusto, o santo e o profano, até que venha o juízo final. Como disse Abraham Kuyper, “não há um centímetro quadrado da existência humana sobre o qual Cristo não clame: É meu!”. Inclusive as praças, os parlamentos e as urnas.
A liberdade como oportunidade de testemunho
Na democracia, o cristão encontra o ambiente ideal para cumprir sua vocação: pregar, servir, cuidar, ensinar, representar e influenciar com ética e compaixão. É na arena pública que o amor ao próximo se transforma em ação política, não pela imposição da fé, mas pelo testemunho de uma vida coerente com o Evangelho.
A democracia não é perfeita — está ferida pelo mesmo pecado que corrompe o coração humano. Ainda assim, é nela que podemos lutar de modo legítimo, propor leis justas, defender os vulneráveis e anunciar a verdade sem medo. Ela nos concede o espaço da palavra, o direito ao contraditório e a chance de viver a fé à vista de todos.
O trono acima das urnas
No entanto, há um lembrete que a fé cristã impõe a todo cidadão dos céus: a democracia não é o Reino de Deus. Ela é um arranjo humano que pode servir aos propósitos divinos, mas nunca os substitui. Cristo reina sobre as democracias e também sobre as ditaduras, sobre os impérios e sobre as ruínas deles.
O cristão participa, vota, discute, legisla — mas sem esquecer que seu Rei não depende de votos. Ele reina pela cruz e governa pela graça. O trono de Cristo não se ergue por maioria parlamentar, e sua constituição é eterna.
Cristo reina sobre as democracias e também sobre as ditaduras, sobre os impérios e sobre as ruínas deles
Fé que sustenta a liberdade
Neste Dia da Democracia, talvez o maior tributo que o cristão possa oferecer a esse regime não seja a exaltação política, mas a fidelidade ética. Participar da vida pública é um ato de gratidão pela liberdade que Deus nos permite gozar; usar essa liberdade para servir é o testemunho mais eloquente de que a fé cristã não apenas moldou a democracia, mas continua a ser sua consciência moral.
Afinal, a verdadeira democracia não é somente a que dá voz a todos, mas a que permite que a verdade continue sendo dita, mesmo quando poucos a escutam.