A disciplina eclesiástica no caso do bispo que processou ex-candidata a vereadora
O caso recente em Cachoeiro de Itapemirim, em que o bispo Dom Luiz Fernando Lisboa processou a ex-candidata a vereadora Mayla Picoli por danos morais, levanta novamente um tema delicado para a vida cristã: como a igreja deve lidar com situações em que um membro peca contra outro?
Se ontem refletimos sobre a legitimidade de irmãos da fé se processarem na justiça comum, hoje precisamos olhar sob uma perspectiva: este parece ser um caso de necessidade de disciplina eclesiástica. E aqui não falamos de vingança ou exposição pública, mas de um caminho bíblico de cuidado, correção e restauração.
O que é disciplina na Igreja?
A disciplina na Igreja é fundamentada, principalmente, no ensino de Jesus segundo o Evangelho de Mateus (capítulo 8, versículos de 15 a 17).
— Se o seu irmão pecar contra você, vá e repreenda-o em particular. Se ele ouvir, você ganhou o seu irmão. Mas, se não ouvir, leve ainda com você uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda questão seja decidida. E, se ele se recusar a ouvir essas pessoas, exponha o assunto à igreja; e, se ele se recusar a ouvir também a igreja, considere-o como gentio e publicano (Mateus 18:15-17)

Segundo o pastor Geoff Chang, a disciplina eclesiástica não é uma punição arbitrária, mas um ato de amor. Ela existe para proteger a Igreja do pecado, corrigir o faltoso e preservar o testemunho do evangelho. É um processo gradual, com base em Mateus 18.15-17: primeiro, a correção privada; depois, o envolvimento de testemunhas; em seguida, a liderança da igreja; e, por fim, se não houver arrependimento, a disciplina pública.
Em outras palavras, a disciplina começa pequena, discreta, buscando sempre ganhar o irmão — e só se amplia quando não há arrependimento.
Tratamento particular x público
O pastor Mez McConnell, em seu artigo sobre a disciplina eclesiástica afirma que ela deve ser aplicada sempre que os membros caem em pecado e que o processo sempre será iniciado de forma particular, conforme Mateus 18.
“Quando vemos uma lacuna entre a confissão de Cristo de uma pessoa e o seu comportamento, nós devemos confrontar isso primeiramente em particular. A disciplina eclesiástica somente deveria se tornar pública quando o pecado se torna tão consistente, habitual e público que somos deixados sem outra opção a não ser confrontá-lo publicamente”, afirma o pastor.

Segundo ele, “a disciplina não é para qualquer deslize ou fraqueza, mas para pecados consistentes e visíveis que colocam em risco o testemunho da igreja”. Além disso, McConnell ressalta que o objetivo nunca é a exclusão em si, mas o arrependimento e a restauração espiritual.
A igreja disciplina por amor: amor ao indivíduo, para que seja levado ao arrependimento; amor à igreja, para proteger os demais; amor ao mundo, para que veja a diferença de um povo santo; e amor a Cristo, para que o nome d’Ele não seja envergonhado.
O caso de Cachoeiro sob esta ótica
No caso em questão, temos uma fiel acusando publicamente seu bispo com palavras duras, em redes sociais. Trata-se de um pecado público e, até aqui, sem arrependimento ou retratação até onde sabemos.
Diante disso, parece-nos que o caminho bíblico não seria o processo judicial, mas a aplicação paciente da disciplina eclesiástica.
- Conversa pessoal – A parte ofendida deveria primeiro procurar o outro membro em particular, expondo a gravidade das palavras e chamando-a ao arrependimento.
- Testemunhas – Se não houvesse resposta, uma ou duas pessoas maduras na fé poderiam se juntar à conversa, confirmando os fatos e exortando em amor.
- Liderança da igreja – Persistindo o problema, os presbíteros deveriam ouvir ambas as partes e avaliar a situação, garantindo o contraditório e a ampla defesa.
- Advertência formal – Caso não houvesse arrependimento, uma advertência clara deveria ser feita, com registro formal e orientação pastoral.
- Comunicação à igreja – Se ainda assim não houvesse mudança, o caso poderia ser levado à congregação, com prudência e clareza.
- Remoção da membresia – Como último recurso, se a ofensa permanecesse sem arrependimento, a igreja poderia declarar que aquela pessoa não caminha mais em conformidade com sua profissão de fé.
Esse processo não expõe o pecador de forma precipitada, mas dá oportunidades reais de reconciliação.
Disciplina como cuidado, não como retaliação

O que vemos muitas vezes é a inversão: ao invés da disciplina bíblica, busca-se os meios do mundo. Isso não apenas enfraquece o testemunho da igreja, como priva o faltoso da chance de arrependimento dentro da comunidade.
A disciplina bíblica, ao contrário, não é vingativa, mas pastoral. Como lembra McConnell, “não disciplinamos por pecar, mas por permanecer impenitente”. A chave é o arrependimento. Se há humildade, confissão e arrependimento genuíno, o processo deve ser interrompido, pois o objetivo foi alcançado.
Conclusão
O caso do bispo e da ex-candidata nos desafia a recuperar a prática bíblica da disciplina eclesiástica. Se uma ovelha ofende seu pastor (ou um membro ofende o outro), a resposta não deve ser no tribunal civil, mas no “tribunal” da Palavra e da comunhão cristã.
A igreja precisa ser firme, mas também amorosa. Precisa proteger a dignidade de seus membros, mas sem abrir mão da graça do evangelho. Afinal, a disciplina existe para expor o pecado, mas principalmente para resgatar o pecador.
A justiça dos homens pode condenar ou absolver. Mas a justiça de Deus, aplicada pela disciplina na igreja, busca algo maior: a restauração de corações e a preservação do testemunho de Cristo no mundo.