Bíblia Católica x Bíblia Protestante: entenda as diferenças que marcaram a história da fé cristã

Bíblia Católica x Bíblia Protestante: entenda as diferenças que marcaram a história da fé cristã

Bíblia Católica x Bíblia Protestante: entenda as diferenças que marcaram a história da fé cristãNeste 30 de setembro, data em que se celebra o Dia da Bíblia Católica, surge a oportunidade de revisitar uma questão central para o cristianismo: afinal, por que a Bíblia Católica é diferente da Bíblia Protestante? Embora ambas proclamem a mesma mensagem central — a revelação de Deus em Cristo —, existem diferenças históricas e teológicas que moldaram a fé de milhões de cristãos ao longo dos séculos.

O que é a Bíblia e como surgiu o cânon?

A Bíblia é um conjunto de livros sagrados escritos em diferentes épocas (num período correspondente a cerca de 1600 anos), por diversos autores, inspirados por Deus. Mas nem sempre houve consenso sobre quais livros deveriam compor esse conjunto, chamado de cânon.

Nos primeiros séculos, as comunidades cristãs utilizavam:

  • O cânon hebraico (39 livros do Antigo Testamento, aceitos pelo judaísmo);

  • A Septuaginta, tradução grega do Antigo Testamento, que incluía livros não presentes no cânon hebraico;

  • Os escritos do Novo Testamento, como os quatro Evangelhos, as cartas apostólicas, o livro de Atos e o Apocalipse.

Bíblia Católica x Bíblia Protestante: entenda as diferenças que marcaram a história da fé cristã
O cânon hebraico, aceito pelo judaísmo, possuía os 39 livros do Antigo Testamento presentes na Bíblia Protestante

Segundo o historiador judeu Flávio Josefo (séc. I), os judeus já tinham um conjunto reconhecido de livros inspirados — próximo ao cânon protestante atual. Já os cristãos, especialmente os de fala grega, usavam também os livros adicionais da Septuaginta.

Ao longo dos séculos, a Igreja foi reconhecendo, de forma prática e litúrgica, quais livros eram de fato inspirados e usados universalmente. Os concílios de Hipona (393) e Cartago (397) sacramentaram essa lista.

Bíblia Católica e Bíblia Protestante: diferença de livros

  • Bíblia Católica: possui 73 livros — 46 no Antigo Testamento e 27 no Novo. Inclui os chamados deuterocanônicos (“segundo cânon”; livros aceitos pela Igreja Católica, mas não pelo judaísmo): Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico (ou Sirácida), Baruc, 1 e 2 Macabeus, além de trechos adicionais em Ester e Daniel.

  • Bíblia Protestante: possui 66 livros — 39 no Antigo Testamento e 27 no Novo. Rejeita os deuterocanônicos, chamando-os de apócrifos, ou seja, úteis para leitura (têm seu valor histórico), mas não considerados divinamente inspirados.

Bíblia Católica x Bíblia Protestante

Aspecto Bíblia Católica Bíblia Protestante
Número de livros 73 (46 AT + 27 NT) 66 (39 AT + 27 NT)
Livros adicionais Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, 1 e 2 Macabeus, acréscimos em Ester e Daniel (deuterocanônicos) Não reconhece esses livros, chamados de apócrifos
Base do cânon do AT Septuaginta (tradução grega usada pelos primeiros cristãos) Cânon hebraico (39 livros reconhecidos pelo judaísmo)
Fechamento do cânon Reafirmado no Concílio de Trento (1546) Reafirmação na Reforma Protestante (séc. XVI), seguindo o cânon hebraico
Princípio de interpretação Escritura + Tradição + Magistério da Igreja Sola Scriptura (somente a Escritura como autoridade final)
Doutrinas específicas Sustenta purgatório (2 Mac 12:44–45) e intercessão dos santos (Sab 3:1–6) Rejeita essas doutrinas, enfatizando a fé em Cristo como suficiente para salvação
Tradução histórica de referência Vulgata Latina (São Jerônimo, séc. IV) Traduções diretas do hebraico e grego na Reforma (Lutero, Tyndale etc.)
Uso litúrgico Centralidade da Palavra ligada à Eucaristia Ênfase na pregação e leitura pessoal da Bíblia

Tradição Católica e Reforma Protestante

Outra diferença central está na forma como se interpreta a Bíblia.

  • Igreja Católica: A interpretação da Escritura está vinculada à Tradição (ensinamentos transmitidos pelos séculos) e ao Magistério da Igreja Católica (autoridade dos bispos em comunhão com o Papa). Assim, a Bíblia não possui a primazia, mas sua autoridade está em pé de igualdade com a Tradição e ao Magistério.

  • Igrejas Protestantes: Defendem o princípio do Sola Scriptura (“somente a Escritura”: princípio reformado que afirma a Bíblia como única autoridade infalível), segundo o qual a Bíblia, por si só, é suficiente como regra de fé e prática. A tradição tem valor, mas não autoridade sobre a Palavra.

Doutrinas e passagens específicas

Algumas doutrinas católicas encontram base em textos deuterocanônicos, ausentes na Bíblia protestante, como a doutrina do purgatório (2 Macabeus 12:44–45 fala em oração pelos mortos) e a da intercessão dos santos (Sabedoria 3:1–6 ressalta a condição bem-aventurada dos justos após a morte).

Já as igrejas protestantes, por não incluírem esses livros, não aceitam essas doutrinas. Para elas, a salvação e o destino eterno estão definidos apenas pela fé em Cristo (Efésios 2:8–9; Hebreus 9:27).

O papel da Vulgata Latina

Bíblia Católica x Bíblia Protestante: entenda as diferenças que marcaram a história da fé cristã
A Vulgata Latina é a tradução da Bíblia para o latim, referência oficial da Igreja Católica Romana

No século IV, São Jerônimo traduziu a Bíblia para o latim, a língua do povo romano. Essa tradução ficou conhecida como Vulgata (de vulgaris, popular). Ela foi fundamental para a preservação e unificação do texto bíblico na Idade Média e se tornou referência oficial da Igreja Católica.

Eucaristia e Santa Ceia

Na tradição católica, a leitura da Palavra está intimamente ligada à Eucaristia (ou Santa Ceia), considerada sacramento em que Cristo se faz presente. Já nas igrejas protestantes, a Ceia é vista como ordenança de Cristo, lembrança de sua morte, mas não com o mesmo caráter sacramental da teologia católica.

Portanto, para católicos, a Eucaristia é o sacramento do corpo e sangue de Cristo; para protestantes, é um símbolo ou memorial da morte de Cristo.

O fechamento do cânon

O Novo Testamento foi escrito no século I e, já no século II, grande parte das igrejas reconhecia os Evangelhos, Atos e as cartas de Paulo como inspirados. O reconhecimento pleno do NT (27 livros) ocorreu no século IV, mas apenas formalizou o que já era prática nas comunidades cristãs.

Quanto aos deuterocanônicos, sempre houve debate. Foram aceitos em concílios antigos, mas questionados por líderes como o próprio Jerônimo. Na Reforma, Martinho Lutero e outros reformadores retomaram o cânon hebraico, excluindo os sete livros adicionais. O Concílio de Trento (1546), que acontece após o início da Reforma Protestante, reafirmou-os como parte integrante da Bíblia Católica Romana.

Conclusão

Apesar das diferenças, católicos e protestantes compartilham a mesma essência: o testemunho de Jesus Cristo como Salvador e Senhor. A divergência sobre o cânon e a interpretação da Bíblia reflete trajetórias históricas distintas, mas ambas reconhecem a centralidade da Palavra de Deus na vida de fé: protestantes como a autoridade máxima em regra de fé e prática; católicos como autoridade vinculada à Tradição e ao Magistério.

O Dia da Bíblia Católica, portanto, é ocasião para todos os cristãos refletirem sobre a importância da Escritura como fundamento da fé.

Bíblia Católica x Bíblia Protestante: entenda as diferenças que marcaram a história da fé cristã
A Igreja primitiva já lia o Antigo Testamento e os escritos do Novo Testamento que viriam a ser formalizados nos concílios 

Apêndice: O que surgiu primeiro, a Bíblia ou a Igreja?

Essa pergunta é central para entender a relação entre Escritura e comunidade cristã.

Do ponto de vista histórico e bíblico, o povo de Deus já lia as Escrituras antes mesmo do surgimento da Igreja cristã. Jesus e os apóstolos usavam o Antigo Testamento em suas pregações. Em Lucas 4:16–21, por exemplo, Cristo lê o rolo do profeta Isaías na sinagoga, mostrando que a Palavra já era reconhecida e proclamada muito antes de haver concílios eclesiásticos.

O apóstolo Paulo confirma essa autoridade em 2 Timóteo 3:15–16:

“Desde a infância sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda Escritura é inspirada por Deus…”

Ou seja, a Escritura já existia como Palavra inspirada e normativa para o povo de Deus.

Do ponto de vista histórico, o historiador judeu Flávio Josefo (séc. I) escreveu que os judeus reconheciam 22 livros sagrados (equivalentes aos 39 livros do cânon hebraico, apenas agrupados de forma diferente). Isso mostra que havia um núcleo consolidado de Escritura já no tempo de Jesus e dos apóstolos.

Com o surgimento da Igreja, os escritos apostólicos (Evangelhos, cartas, Atos e Apocalipse) foram sendo recebidos pelas comunidades cristãs como igualmente inspirados. No século II, já havia listas com quase todos os 27 livros do Novo Testamento que usamos hoje. O chamado Fragmento Muratoriano (aprox. 170 d.C.) já apresentava essa seleção.

Assim, quando a Igreja, séculos mais tarde, “fechou” oficialmente o cânon nos concílios, ela não criou a Bíblia, mas apenas formalizou aquilo que já era reconhecido e usado pelas comunidades cristãs como Palavra de Deus.

Em resumo:

  • A Escritura do Antigo Testamento já existia antes da Igreja.

  • Os escritos do Novo Testamento foram recebidos e reconhecidos gradualmente pelas primeiras comunidades.

  • A Igreja não inventou a Bíblia, mas apenas sacramentou um cânon que já era vivido, lido e pregado.


*Gustavo Gouvêa é jornalista, teólogo, mestre em Ciências Sociais e membro da Primeira Igreja Batista de Vitória