Crise est(ética) nas igrejas: consumo ou culto a Deus?
Igreja: uma crise estética e ética, por Gustavo Siqueira*
Se eu te pedir para imaginar o prédio de uma igreja, você poderia pensar numa construção com uma torre pontiaguda, pintada de branco e amarelo ou azul com um sino. Ou ainda poderia imaginar uma construção barroca de séculos atrás, com esculturas e vitrais coloridos.
Essa imagem de uma igrejinha tradicional presente em nosso imaginário está desaparecendo a cada dia nos bairros e ruas de nossas cidades. Atualmente as igrejas têm se afastado desta estética canonizada em nosso imaginário para algo mais contemporâneo: paredes pretas, fachada quadrada que mais parece uma casa de shows ou até mesmo um shopping. São as chamadas “Churches”.
Essa estética curiosa, com suas paredes pretas, iluminação de bares de classe média alta, roupas em tons terrosos e pastéis tem a intencionalidade de criar uma experiência para os seus frequentadores. Também é comum o uso de expressões da língua inglesa nos cultos e em seus departamentos, uma linguagem mais jovem buscando sempre o afastamento da dinâmica de uma igreja tradicional.
Mas será que estas diferenças são apenas adaptações a um novo tempo, ou traduzem uma crise ética nestas igrejas da atualidade? Será que existem valores nesta mudança que contrastam com o evangelho de Jesus Cristo?
Talvez em uma tentativa de tornar a fé mais atraente para o jovem do século 21, numa época com tantos shows, lugares para socializar e se entreter, os evangélicos começaram a imitar a estética destes lugares que fazem sucesso entre os jovens, somando-se ao desejo por uma experiência subjetiva que é marcante nesta geração: a busca por transcendência.
Chegamos no resultado de uma experiência religiosa de paredes escuras, iluminação de show, músicas repetitivas que mexem com as emoções, ao invés de gerar apenas compreensão racional da exposição bíblica ou cânticos que reforçam doutrinas da igreja.
Religião como produto
Em nossa sociedade de consumo, a religião também vira um produto, ou o consumo vira religião. James K. A. Smith demonstra essa relação em seu livro “Você é aquilo ama”:

“O shopping como um centro cerimonial, o shopping como ‘mais que’ um local de compras é um modo como as pessoas de hoje suprem suas necessidades de renovação e reconexão, ingredientes essenciais da vida religiosa e humana”.
O irônico nisso é que de acordo com Smith, os shoppings reproduzem uma dinâmica arquitetônica de uma catedral medieval e transformam o consumo em culto. E, agora, esta mesma dinâmica do shopping está sendo reproduzida pelas igrejas.
Existem “Churches” que são verdadeiros “cases de sucesso”, que se transformam em mega igrejas, com filiais em outros estados e até mesmo em outros países. Elas possuem uma estrutura opulenta para sustentar as experiências subjetivas de transcendência através do consumo de cultos e produtos. São igrejas ricas, frequentadas muitas vezes por pessoas de classe-média alta, buscando uma experiência religiosa que muitas vezes está desligada dos problemas sociais que as cercam.
Quando Deus se opõe ao culto
Isso também aconteceu num período na história do povo de Deus, como aponta o teólogo e historiador André Reinke. Período que houve um tempo de riqueza ostentada nos cultos entusiasmados e bem frequentados e Deus levantou profetas que denunciaram o pecado e a desigualdade social, o abandono da ética o qual este culto estava vinculado.

Através do profeta Amós, Deus afirmou que odiava as festas e reuniões, o ruído dos cantos e dos sacrifícios, pois desejava que o direito e a justiça corressem como rios (Amós 5:21-24).
Oseias anunciou o desejo divino pelo amor em vez de sacrifícios, e o conhecimento de Deus acima de holocaustos (Oseias 6:6).
Miqueias questionava se Deus se agradaria de milhares de sacrifícios e libações, anunciando a exigência da justiça e da bondade (Miqueias 6:6-8).
O grande profeta Isaías acusou o próspero povo de Judá de serem adúlteros como Sodoma e Gomorra, abominando os seus incontáveis sacrifícios e festas solenes, o rigor litúrgico associado à opressão dos necessitados (Isaías:10-20).
Conclusão
Creio que mais profundas que as mudanças estéticas para a igreja de nosso tempo são os valores por trás delas. Há especialistas que apontam para como a arquitetura molda nossos afetos e devoções. Mas para além disso, devemos atentar para que a nossa fé não se torne uma experiência transcendental movida pelo consumo de experiências e produtos que nos tornem alienados dos problemas sociais que nos cercam; que façam com que sintamos que somos o centro do universo, nos importando apenas com nossos problemas. Isso está longe de ser a experiência da comunidade de discípulos de Jesus que vemos nas páginas do Novo Testamento.