“Deixem vir a mim as criancinhas”: uma reflexão sobre a adultização das crianças no meio gospel
Uma reflexão sobre a adultização das crianças no meio gospel, por Vinícios Maia*
Você já parou para pensar no que Jesus quis dizer quando afirmou que as crianças deveriam vir até Ele? Por que, na prática, vemos o contrário: crianças sendo tratadas como adultos, vestidas como adultos, falando como adultos, e até pregando como se fossem os maiores teólogos do mundo moderno?
Tenho observado com preocupação o comportamento de adultos com as crianças na igreja. Em muitos momentos queremos que a igreja esteja cheia de crianças, mas desejamos que elas se comportem como adultos; queremos que elas vivam experiências que nós mesmos só tivemos após nos tornarmos adultos. Será que esse é o verdadeiro sentido do que Jesus quis dizer?
Recentemente, o youtuber Felca fez um vídeo que denuncia pessoas que usam crianças e adolescentes como produtos. Esses menores estão envolvidos em conteúdos erotizados, monetizados, sendo expostos e, muitas vezes, explorados por interesses financeiros. Ficamos horrorizados ao assistir e sentimos uma repulsa profunda a cada denúncia feita.
Porém, no meio gospel, essa realidade não é diferente. Quantas crianças que deveriam estar vivendo a infância estão se vestindo, falando e se comportando como adultos nos púlpitos de igrejas? E o pior: sendo expostas ao ridículo em troca de likes, fama e dinheiro nas redes sociais.
Vemos nomes como Miguel Oliveira e Vitória Souza — que, na época, ainda eram adolescentes — navegando na onda do engajamento, buscando likes, fama e até dinheiro. Muitos desses pregadores mirins cobram cachê, exigem hotel de luxo e passagem de avião para pregar em grandes igrejas, enquanto as pequenas comunidades de fé ficam de fora.
E o mais assustador: nós, como público consumidor, também somos cúmplices. Cada curtida, comentário ou compartilhamento — muitas vezes com risadas ou comentários irreverentes — alimenta esse mercado da fé nas redes sociais. Quem não compartilhou vídeos engraçados com o pregador mirim falando ‘off the king off the power’?
Adultização: esquecendo a essência do Evangelho

Essa lógica de oferta e demanda faz com que as crianças aprendam a falar o que o público quer ouvir, deixando de lado a essência do Evangelho.
Um exemplo claro é Vitória Souza, que pregou na festa de união homoafetiva de um dos denunciados no vídeo do Felca. Ela afirmou coisas que até satanás questionaria, mais parecendo uma tentativa de agradar ao público do que uma mensagem de Deus.
Outro caso é Miguel Oliveira, que noutro dia declarou desejar ser deputado em Brasília. Não me surpreende: uma criança que já está em contato com o poder, ao invés de focar no Evangelho, acaba sendo atraída por fama, influência e dinheiro.
Quando navegamos pelas redes sociais, vemos pregadores e pregadoras mirins falando e se comportando como adultos, vestindo-se como adultos, muitas vezes com um adulto por trás, ganhando fortunas com isso. Mas por quê?
Por que crianças estão assumindo compromissos que são para adultos? Talvez por ganância de alguns adultos ou porque muitos não estão assumindo seu papel na igreja e na sociedade.
No fim das contas, somos todos consumidores desse conteúdo adultizado no gospel.
Precisamos refletir: qual é o verdadeiro sentido do que Jesus quis dizer ao afirmar que as crianças deveriam vir até Ele?
Que as crianças venham, mas que permaneçam crianças!
Vamos resgatar a essência do Evangelho, proteger a infância e parar de transformar crianças em produtos de mercado. O verdadeiro Evangelho é simples, puro e deve ser vivido com sinceridade — sem adultizações, sem exploração, e com o coração voltado para Jesus.