Dia da Universidade: quando a fé encontrou a razão
Celebramos neste domingo, 18 de janeiro, o Dia da Universidade no Brasil. Enquanto muitos associam a academia contemporânea a um ambiente de secularismo e, por vezes, de hostilidade à fé, poucos conhecem a verdade histórica surpreendente: a universidade, como instituição, é uma criação da mente e do coração cristão.
Ela nasceu não apesar da fé, mas dela e para ela. Neste espaço, propomos uma reflexão sobre essas raízes esquecidas e o que a tradição reformada tem a dizer sobre nossa relação com o conhecimento superior.
O parto da razão no leito da fé
As primeiras universidades não emergiram de um vácuo secular. Elas foram gestadas no ventre da Igreja medieval. A convicção central que as gerou era teológica: se Deus é o Logos (a Palavra racional e criadora, João 1:1), e se o mundo é sua obra, então estudar a criação e o pensamento é um ato de obediência e adoração. A famosa máxima de Agostinho, “fides quaerens intellectum” (a fé em busca de entendimento), tornou-se o motor intelectual da era.
As primeiras universitates surgiram como corporações eclesiásticas no século XII. Destacamos:
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Universidade de Bolonha (c. 1088): Especializada em Direito Canônico e Civil, formou a estrutura jurídica do Ocidente.
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Universidade de Paris (c. 1150): Coração da teologia e filosofia, onde a luz da razão foi posta a serviço da compreensão da Revelação.
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Universidade de Oxford (c. 1096): Centro de estudos que atraiu mentes brilhantes da Igreja.
Essas instituições foram formalizadas e protegidas por bulas papais, que garantiam sua autonomia e o valor universal de seus diplomas. O currículo, centrado no Trivium (Gramática, Retórica, Lógica) e Quadrivium (Aritmética, Geometria, Música, Astronomia), culminava na “Rainha das Ciências”: a Teologia. O conhecimento era um todo integrado, apontando para a soberania de Deus sobre todas as áreas da vida.

Arquitetos da inteligência para a glória de Deus
Grandes nomes, todos eles profundamente enraizados na fé, foram os pilares desse edifício:
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Pedro Abelardo (1079-1142): Com seu método das quaestiones, incentivou o debate crítico, mostrando que a fé podia suportar o questionamento rigoroso.
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Alberto Magno (1200-1280): Dominicano que dedicou sua vida a demonstrar que o estudo da natureza (ciência) era compatível e subsidiário à fé.
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Tomás de Aquino (1225-1274): Sua monumental Suma Teológica realizou a síntese mais harmoniosa entre a razão aristotélica e a revelação cristã, legando à Igreja e ao mundo um modelo de integração entre fé e ciência.
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John Wycliffe (1320-1384): Professor em Oxford, cujos trabalhos de tradução da Bíblia e crítica à autoridade papal plantaram sementes que frutificariam na Reforma.
A Igreja foi, portanto, a mãe, a nutridora e a protetora do ensino superior. Ela forneceu a estrutura institucional, o financiamento, a salvaguarda intelectual e, acima de tudo, a cosmovisão unificada que tornava o esforço acadêmico significativo.

O grande divórcio: a secularização da catedral do saber
Como, então, chegamos ao cenário atual, onde a fé é muitas vezes marginalizada ou ridicularizada no ambiente universitário? O processo foi lento e complexo, com alguns marcos:
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O Iluminismo Radical (séc. XVIII): A razão humana (Aufklärung) começou a ser vista não mais como dom de Deus para descobrir sua verdade, mas como juiz autônomo e supremo de toda a verdade. A fé foi relegada ao espaço privado.
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A Fragmentação do Saber (séc. XIX): Com o avanço científico e o surgimento das disciplinas especializadas, a “Rainha das Ciências” (Teologia) foi deposta. O conhecimento perdeu seu centro unificador, tornando-se uma coleção de fatos desconexos. A visão de mundo cristã deixou de ser o paradigma integrador.
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A Ascensão do Naturalismo Metodológico (séc. XX): A ciência, por necessidade metodológica, passou a buscar explicações apenas dentro do mundo natural. Porém, essa metodologia foi, em muitos casos, elevada a uma filosofia (Naturalismo Filosófico), que afirma que nada além do mundo natural existe. Essa visão, que é em si uma fé dogmática, tornou-se a atmosfera dominante em muitos departamentos, expulsando a possibilidade do transcendente a priori.
O resultado não foi a “neutralidade”, mas a substituição de um paradigma (cristão) por outro (naturalista/secular). A fé não foi simplesmente removida; foi, em muitos casos, substituída por uma nova ortodoxia, muitas vezes militante.
A fé cristã e a universidade no Brasil hoje
No Brasil, herdeiro de uma tradição católica e de um estado laico, a universidade pública vive grande tensão. Predomina, em amplos setores das humanidades e ciências sociais, uma visão secularista e materialista. Cristãos, especialmente os de confissão reformada e evangélica, muitas vezes se sentem estrangeiros em sua própria terra intelectual, vistos com desconfiança ou como portadores de um pensamento “não crítico”.
No entanto, há sinais de esperança. A presença de grupos de estudos e ministérios universitários (como a ABU – Aliança Bíblica Universitária) demonstra que há fome por integração entre fé e razão. A produção acadêmica de qualidade de pensadores cristãos em filosofia, direito, ciências e letras mostra que a fé pode dialogar com rigor.
A cosmovisão reformada, com seu entendimento da Soberania de Cristo sobre toda a cultura (Colossenses 1:17) e da graça comum que permite a descoberta de verdades por todos os seres humanos, tem um contributo único a oferecer.

Retomando o espaço: contribuição, não dominação
Como, então, os cristãos podem “retomar” este espaço, não no espírito de dominação triunfalista, mas no espírito de servo, contribuindo para o bem comum e a busca da verdade?
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Excelência com humildade: Devemos buscar a excelência acadêmica em todas as áreas. Ser um bom estudante, um pesquisador mais meticuloso, um professor mais dedicado. A mediocridade não glorifica a Deus e não abre portas para a influência (Daniel 6:3).
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Cosmovisão consciente: Precisamos ir além de um “cristianismo de gueto”. Devemos desenvolver e aplicar uma cosmovisão bíblica às nossas disciplinas. Como a doutrina da criação impacta a biologia? Como a queda e a redenção iluminam a sociologia? Como a lei de Deus informa o direito?
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Engajamento corajoso e gracioso: Devemos participar dos debates, publicar artigos, frequentar congressos, não com um complexo de inferioridade, mas com a confiança de quem possui um fundamento sólido para a realidade. Nosso tom deve ser gracioso, respeitoso e firmado na verdade (Colossenses 4:6).
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Serviço à comunidade acadêmica: Devemos ser os primeiros a promover o bem-estar do campus, a integridade intelectual, o cuidado com os colegas em crise. Mostrar que o amor de Cristo se traduz em ação prática.
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Fundação de instituições de excelência: Apoiar e desenvolver universidades confessionais sérias que não tenham medo de integrar fé e ciência, mantendo rigor acadêmico de ponta, é um legado vital para as próximas gerações.
A universidade moderna, com todas as suas contradições, ainda é herdeira daquele impulso sagrado de buscar a verdade. Cabe a nós, cristãos, lembrá-la de suas nobres origens. Não para voltar ao passado, mas para oferecer, no presente, a única base que pode restaurar o sentido unitário do conhecimento: a certeza de que “nEle vivemos, nos movemos e existimos” (Atos 17:28).
Que neste Dia da Universidade, possamos renovar nosso compromisso de levar a mente renovada de Cristo (Romanos 12:2) para dentro dos muros acadêmicos, como servos da Verdade que liberta.