Doação de órgãos é coerente com a Bíblia e a fé cristã? Como será na ressurreição?
Neste sábado (27), o Brasil celebra o Dia Nacional de Doação de Órgãos, data que levanta debates importantes sobre a prática. A “Lei dos Transplantes” estabelece que a doação de órgãos após a morte só pode ser realizada quando for constatada a morte encefálica, porém a negativa familiar ainda é o maior entrave às doações no Brasil.
Em alguns casos, as famílias se preocupam com a “beleza” do corpo no velório do ente querido. Mas o Ministério da Saúde esclarece que a doação de órgãos não deixa o corpo do doador deformado. “Os órgãos e tecidos doados são removidos por cirurgia, por isso, a doação não desfigura o corpo e não atrapalha a cerimônia do velório”.
Em outros casos, famílias de fé cristã se deparam com questões éticas e teológicas: será que doar órgãos após a morte encefálica é permitido pela Bíblia? E na ressurreição, como serei, se não terei mais meus órgãos?
Essas são perguntas legítimas sobre as quais pretendemos nos debruçar neste artigo.
O amor ao próximo como fundamento bíblico
A Bíblia não menciona diretamente a doação de órgãos, mas nos dá princípios claros de amor, solidariedade e serviço, que fundamentam a prática. Eis três versículos centrais:
a) João 15:13
“Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a sua vida pelos seus amigos”
Nesse texto, o Senhor Jesus mostra o ápice do amor: entregar-se em favor do outro, assim como Ele fez. Se em vida já somos chamados a dar de nós mesmos, quanto mais após a morte, quando não temos mais necessidade dos nossos órgãos. A doação é um ato de amor sacrificial, que imita a disposição de Cristo.
b) Lucas 10:27
“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo”
A doação de órgãos é uma forma concreta de viver esse mandamento de Jesus. Assim como gostaríamos de receber ajuda em uma situação de vida ou morte, oferecemos a outros a chance de viver — praticando o amor que Cristo nos ordenou.

c) Filipenses 2:4
“Cada um não atente somente para o que é seu, mas cada qual também para o que é dos outros”
Esse princípio da empatia e do cuidado ensinado por Paulo aos Filipenses, mostra que não devemos ser egoístas nem mesmo em relação ao nosso corpo após a morte. A doação coloca o bem do próximo acima de qualquer apego ao que, biblicamente, já é pó.
John Piper, em Desiring God, fala que o amor cristão é sempre ativo e sacrificial: “O amor busca o bem eterno e o bem-estar terreno do outro, mesmo que custe algo a nós”. Assim, doar órgãos, mesmo após a morte, é coerente com esse amor sacrificial.
Timothy Keller também afirma que o evangelho nos move a viver em serviço prático, pois fomos amados primeiro. A doação é, nesse sentido, um serviço cristão depois da vida.
A esperança da ressurreição e os corpos glorificados
Uma das dúvidas mais comuns é: se eu doar meus órgãos, isso comprometerá minha ressurreição no último dia?
A Escritura nos assegura o que não: Deus nos dará corpos glorificados no último dia.
1 Coríntios 15:42-44
“Semeia-se o corpo em corrupção, ressuscitará em incorrupção. Semeia-se em desonra, ressuscitará em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscitará em poder. Semeia-se corpo natural, ressuscitará corpo espiritual”
Paulo deixa claro que o corpo terreno é semeado (como uma semente que morre) e ressuscitará transformado, glorificado. Portanto, não importa se o corpo foi enterrado, cremado ou se teve órgãos doados — a promessa da ressurreição não depende da integridade do corpo físico.
João Calvino, nas Institutas, livro III, cap. 25, fala que a ressurreição não depende de “preservação da substância física”, mas do poder criador de Deus. Ele diz que “aquele que do nada fez o mundo, certamente não terá dificuldade em restaurar os corpos dos fiéis, ainda que reduzidos a pó ou cinzas”.

Louis Berkhof, em sua Teologia Sistemática, reforça: a ressurreição é obra de Deus soberano, que transformará nossos corpos em conformidade com o corpo glorioso de Cristo (Fp 3:21).
Portanto, doar órgãos – ou ser enterrado ou ter o corpo cremado – não ameaça em nada nossa esperança na vida eterna. Somos pó, e ao pó voltaremos (Gn 3:19). Mas nossa esperança não está no pó, e sim em Cristo, que ressuscita os mortos e nos dará um corpo incorruptível.
Conclusão: um ato cristão de amor
À luz da Bíblia a doação de órgãos não fere nenhum princípio bíblico; ao contrário, é uma forma de cumprir o mandamento do amor ao próximo, além de testemunhar nossa confiança na ressurreição.
A ressurreição futura garante que nossos corpos serão transformados pela graça de Deus, independentemente da condição física em que estiverem após a morte.
Portanto, a doação de órgãos é um ato legítimo, piedoso e profundamente cristão, pois espelha o amor sacrificial de Cristo e testemunha nossa confiança no poder de Deus que ressuscita os mortos.
Que neste Dia Nacional de Doação de Órgãos, em que milhares aguardam pela chance de viver, possamos cumprir o mandamento de Cristo.
Gustavo Gouvêa é jornalista, teólogo, mestre em Ciências Sociais e membro da Primeira Igreja Batista de Vitória
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Apêndice: E quanto à ressurreição dos ímpios?
Alguns se perguntam: e os que morrem sem Cristo? A Bíblia ensina que todos ressuscitarão (Jo 5:28-29). Mas:
- Os crentes ressuscitam para a vida eterna com corpos glorificados (1Co 15:42-44).
- Os ímpios também ressuscitam, mas não com corpos glorificados. Ressuscitam para a condenação eterna, como ensina Daniel 12:2: “uns para a vida eterna e outros para vergonha e desprezo eterno”.
Anthony Hoekema e Louis Berkhof afirmam, na tradição reformada amilenista, que a ressurreição será universal e única no fim dos tempos. Para os eleitos, corpo glorificado em Cristo; para os ímpios, corpo ressuscitado apenas para suportar o juízo.
Assim, a esperança da ressurreição gloriosa pertence apenas aos que estão em Cristo Jesus. Com isso, o cristão pode descansar em duas verdades:
- Doar órgãos é amar o próximo de forma prática e bíblica.
- Nossa ressurreição futura está garantida pela obra soberana de Deus, e não pela preservação do corpo físico.