Doação de órgãos: recusa de famílias trava esperança no ES

Doação de órgãos: recusa de famílias trava esperança no ES

Olira Carvalho tinha 61 anos quando decidiu se reinventar e seguir um sonho: tornar-se DJ. Com o nome artístico “Mamy Blue”, ela divide o tempo entre a música e as sessões de hemodiálise, mantendo a energia e a determinação que sempre marcaram sua vida.

Ao receber a notícia de que precisaria entrar na fila de transplante de rim, Olira lembra do impacto do diagnóstico. “Me senti frustrada, esperar é muito difícil”, relata. Apesar das dificuldades, ela assegura que a presença da família e o apoio dos amigos a ajudam a atravessar cada dia com esperança.

Hoje, aos 67 anos, ela conta que a música permanece como motivação e sonho. Olira projeta o futuro com alegria e determinação e espera poder levar alegria e muita música boa pelo mundo a fora. Para ela, a doação de órgãos é um ato de solidariedade que pode transformar vidas.  “Fale para sua família e os amigos o quanto gratificante é poder ajudar ao nosso próximo, simplesmente fazendo uma doação. Seja a segunda chance de alguém”, aconselha.

Doação de órgãos: recusa de famílias trava esperança no ES
Olira Carvalho, da DJ Mamy Blue, aguarda por um transplante de órgão

Olira é uma das 2.709 pessoas que aguardam por um transplante no estado. Viver à espera de um transplante é como contar os dias com o coração apertado e a esperança acesa. Para quem precisa, cada ligação pode significar a chance um recomeço; para quem doa, a possibilidade de transformar dor em solidariedade.

Dia Nacional da Doação de Órgãos e dados no ES

O Dia Nacional da Doação de Órgãos, celebrado neste sábado (27 de setembro), reforça a importância de um gesto capaz de transformar a dor da perda em esperança de vida. No Espírito Santo, o sistema estadual de transplantes tem avançado, mas ainda enfrenta barreiras que dificultam o processo.

Dados da Secretaria da Saúde, por meio da Central Estadual de Transplantes (CET-ES) apontam que a maior parte da lista de espera é por córnea (1.553), seguida por rim (1.103), fígado (42) e coração (11). No Brasil, são 80.439 pessoas cadastradas no Sistema Nacional de Transplantes (SNT).

Decisão da família

De acordo com a chefe de divisão de apoio diagnóstico terapêutico do Hucam/Ufes, a enfermeira Ana Paula Beje, legalmente, todos os brasileiros são potenciais doadores, mas a decisão final sempre será da família. “Infelizmente, o maior obstáculo ainda é a recusa familiar, e ela geralmente acontece porque nunca houve uma conversa em casa sobre o desejo de doar”, explica.

A doação só é possível após a confirmação rigorosa de morte encefálica (definido pela Resolução CFM nº 2.173/2017 e pela Lei Federal nº 9.434/1997), com exames clínicos e complementares, além da avaliação da viabilidade dos órgãos. O processo exige equipes especializadas em cada hospital e a atuação da Central Estadual de Transplantes, que organiza a logística de captação e distribuição.

Doação de órgãos: recusa de famílias trava esperança no ES
Enfermeira Ana Paula Bege afirma que o maior obstáculo para doações e transplantes ainda é a recusa familiar

No Espírito Santo, a atuação das Comissões Intra-Hospitalares de Doação de Órgãos e Tecidos (CIHDOTT) tem sido fundamental para dar segurança às famílias nesse momento delicado. Apesar da clareza dos protocolos, muitas famílias ainda resistem em autorizar a doação. Ana acredita que isso se deve a falta de diálogo prévio sobre o tema.

“Em um momento de dor, a decisão se torna mais difícil, especialmente quando há dúvidas sobre a morte encefálica”. De acordo com a enfermeira, é muito comum que parentes a confundam com um estado reversível, o que gera falsas esperanças. Além disso, a disseminação de notícias falsas sobre tráfico de órgãos e lendas urbanas também prejudica a aceitação.

Outro desafio está na estrutura hospitalar. Para que o processo de doação ocorra, é preciso que cada hospital conte com uma equipe especializada, preparada para identificar o potencial doador, conduzir o protocolo de morte encefálica e abordar a família com sensibilidade.

Avanços e riscos

Nos últimos anos, avanços médicos e tecnológicos têm contribuído para ampliar a viabilidade dos órgãos doados. Equipamentos de perfusão normotérmica, por exemplo, permitem manter rins, fígados e corações em temperatura corporal, oxigenados e nutridos, aumentando o tempo de preservação e até recuperando órgãos inicialmente inviáveis.

“Entre os principais destaques estão: a perfusão de órgãos fora do corpo, transplantes combinados com suporte tecnológico, avanços em imunossupressão, triagem laboratorial rigorosa, além de campanhas e gestão humanizada”, cita Ana Paula.

Mesmo com esses progressos, os riscos não deixam de existir. Receptores enfrentam a possibilidade de rejeição e infecções devido ao uso de medicamentos imunossupressores, que também podem causar efeitos colaterais como hipertensão e diabetes.

Já no caso dos doadores vivos, os riscos estão ligados ao ato cirúrgico, com chances de dor, sangramento e infecção, mas a recuperação costuma ser rápida. Em doações de fígado, por exemplo, o órgão pode se regenerar em até 70% em cerca de 15 dias.

Um gesto de amor entre mãe e filha

Doação de órgãos: recusa de famílias trava esperança no ES
Maria Aparecida Cerelli doou um rim para a filha Cirlene Schultz

Exemplos de doação em vida emocionam e mostram a importância do gesto. Segundo informações fornecidas pelo Hospital Meridional, em maio deste ano, Maria Aparecida Celleri, de 55 anos, doou um rim para a filha, Cirlene Schultz, de 38, que passou três anos em diálise após complicações de pré-eclâmpsia.

Cirlene descreve a experiência como uma verdadeira segunda chance: “Posso dizer que é algo inexplicável ter um pedacinho da minha mãe em mim pelo resto da vida. Se eu tivesse que fazer a mesma coisa por ela, faria com toda certeza, porque a amo muito”.

Em entrevista, Maria Aparecida assegura que Deus a proporcionou saúde para poder doar um rim para sua filha, que sofreu tanto. “Pude dar a vida à minha filha no parto e, agora, ao doar um órgão, pude dar uma segunda chance de ela viver novamente”, destaca.

De acordo com o coordenador do Programa de Transplante Hepático do Hospital Meridional Cariacica, Gustavo Peixoto, existem dois tipos de doação: após a morte e com o doador vivo. Segundo o especialista, a doação após a morte possibilita o transplante de órgãos como coração, pulmões, fígado e rins.

Já a doação em vida permite que rins, medula óssea ou partes do fígado e pulmão sejam transplantados. “É recomendado que o doador tenha vínculo parental de até quarto grau com o receptor”, explica o médico.

Dados da Secretaria de Estado de Saúde (Sesa) mostram que até agosto deste ano, o Espírito Santo já realizou 431 transplantes, superando o mesmo período de 2024, quando foram 330 procedimentos. No ano passado, o total chegou a 510 cirurgias.

O Brasil, que possui o maior programa público de transplantes do mundo via SUS, também registrou números expressivos: em 2024 foram mais de 30 mil transplantes, ultrapassando os 28,7 mil realizados em 2023. Porém, o número de doadores efetivos caiu de 4.129 para 4.086, sinalizando que a conscientização ainda é um grande desafio.