Família tradicional na Bíblia: uma resposta a Flávio Dino

Família tradicional na Bíblia: uma resposta a Flávio Dino

Família tradicional na Bíblia: uma resposta a Flávio DinoEm sessão recente do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Flávio Dino contestou a ideia de um único modelo de “família tradicional”, argumentando que a própria Bíblia Sagrada apresenta diversos arranjos familiares.

Citando as trajetórias de Moisés (“filho adotivo”) e, principalmente, de Abraão – que “viveu com Sara, depois com Agar, e voltou novamente para Sara… e no meio do caminho ainda vai para o Egito, e Sara é compelida a ter uma relação afetiva com o faraó” –, o ministro concluiu que as Escrituras reforçariam a “opção constitucional pátria, no sentido de que não existe uma única maneira de se… relacionar amorosamente”.

Embora a intenção de valorizar a diversidade de arranjos contemporâneos seja compreensível no âmbito jurídico, a metodologia de interpretação bíblica utilizada merece uma análise crítica e aprofundada.

É apaziguado afirmar que a leitura proposta pelo ministro Dino desconsidera a estrutura narrativa e teológica central das Escrituras, que distingue claramente entre o padrão normativo de Deus e a descrição realista do fracasso humano.

1. O arquétipo divino: a família no estado de inocência (Gênesis 1-2)

Antes de qualquer narrativa de falha, a Bíblia estabelece um padrão criacional incontestável. Em Gênesis 1:27-28, a humanidade é criada à imagem de Deus, “macho e fêmea”, e recebe o mandamento de “frutificar, multiplicar e encher a terra”. Esta missão é intrinsicamente vinculada à união complementar entre homem e mulher.

Em Gênesis 2:18-24, o relato é ainda mais específico. Diante da solidão do homem, Deus declara: “Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea”. A mulher é formada da costela do homem, simbolizando igualdade de essência e complementaridade de função. O versículo 24, que serve como clímax da narrativa, estabelece o padrão permanente: “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne”.

Conclui-se, portanto, que este é o padrão “tradicional”:

  • Heterossexual: “Macho e fêmea”
  • Monogâmico: “Une-se à sua mulher” (singular)
  • Público e Aliançado: “Deixa pai e mãe”
  • Unificado: “Uma só carne”

Jesus Cristo, questionado sobre o divórcio, não apela para as concessões da Lei Mosaica, mas volta explicitamente a este princípio do Éden (Mateus 19:4-6), confirmando sua validade normativa e permanente.

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2. A realidade da queda: a narrativa bíblica não endossa, mas expõe o pecado

O ministro Dino está correto ao afirmar que a Bíblia mostra arranjos familiares complexos e não ideais. No entanto, ele comete um grave erro hermenêutico ao tratar a descrição desses arranjos como se fosse uma prescrição ou endosso divino.

A teologia reformada sempre compreendeu que, a partir de Gênesis 3, o pecado distorce todas as instituições divinas, incluindo a família. As narrativas de Abraão, Davi, Salomão e outros não são exemplos a serem seguidos, mas lições objetivas das consequências desastrosas do afastamento do padrão de Deus.

  • A Poligamia de Abraão: A decisão de Abraão de coabitar com Hagar (Gênesis 16) foi uma tentativa humana de cumprir a promessa de Deus, movida pela incredulidade e impaciência. O texto sagrado não celebra este ato; pelo contrário, ele descreve imediatamente o conflito, o ciúme e a dor que dele resultaram – um legado de conflito que perdura até hoje entre os descendentes de Isaque e Ismael.
  • A Mentira de Abraão no Egito: A afirmação de que Sara foi “compelida a ter uma relação afetiva com o faraó” (Gênesis 12:10-20) é, na verdade, o relato de Abraão mentindo e pondo em risco a esposa para salvar a própria vida. A narrativa mostra a covardia do patriarca e a intervenção direta de Deus para corrigir o erro e punir o faraó. É um episódio que evidencia o pecado, não um novo modelo familiar.
  • A Poligamia de Salomão: 1 Reis 11:1-6 é explícito: as muitas esposas de Salomão “perverteram o seu coração” e o levaram à idolatria, resultando no juízo de Deus sobre o seu reino.

A Bíblia é um livro profundamente realista. Ela não esconde os pecados de seus heróis da fé justamente para mostrar que a redenção é necessária e que a graça de Deus opera apesar de nossas falhas, não por causa delas.

3. A reafirmação do padrão da “família tradicional” na lei e nos profetas

Mesmo em meio a uma sociedade caída, a Lei Mosaica e os escritos proféticos buscam repetidamente proteger, restaurar e refletir o padrão original do Éden, demonstrando que os desvios narrativos não anularam a norma divina.

  • A Lei como guardiã: Os Dez Mandamentos (Êxodo 20) pressupõem e protegem a estrutura familiar básica. O mandamento “Honra teu pai e tua mãe” estabelece a família como a unidade fundamental da sociedade, enquanto “Não adulterarás” serve como um muro de proteção ao vínculo conjugal singular e fiel entre homem e mulher.
  • Os limites da santidade: Levítico 18 proíbe de forma minuciosa uma série de relações sexuais e familiares fora do padrão estipulado por Deus. Estes estatutos não eram uma lista arbitrária, mas um demarcador claro entre o povo da aliança e as nações pagãs, reafirmando a santidade do leito conjugal conforme o desígnio original.
  • A sabedoria do casamento fiel: A literatura sapiencial exalta repetidamente a beleza e a alegria do casamento monogâmico. Provérbios 5:18-19 convida o homem a se alegrar “com a esposa da tua juventude”, descrevendo-a como fonte de prazer e amor. Eclesiastes 9:9 instrui: “Goza a vida com a mulher que amas”, e Provérbios 31 celebra o valor inestimável de uma esposa virtuosa.
  • A voz profética final: Malaquias 2:14-16 é um dos textos mais contundentes do Antigo Testamento. O profeta defende veementemente o casamento monogâmico e fiel, chamando-o de “aliança” solene perante Deus. Ele declara que o Senhor é testemunha entre o marido e a esposa e afirma, de forma inequívoca: “Eu odeio o divórcio”. Esta não é uma mera opinião cultural, mas uma forte reafirmação profética do princípio estabelecido em Gênesis 2.

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4. A redenção do modelo: o Novo Testamento reafirma e eleva o padrão do Éden

A revelação progressiva das Escrituras não anula o padrão original, mas o restaura e eleva à sua plenitude redentora.

  • Em Cristo: Jesus reafirma o padrão do Éden como a vontade permanente de Deus para o matrimônio (Mateus 19).
  • Na teologia paulina: O apóstolo Paulo, em Efésios 5:22-33, apresenta o casamento entre um homem e uma mulher como um “mistério” sagrado que reflete a união entre Cristo e a Igreja. Esta é a mais elevada definição do matrimônio, tornando-o um símbolo do Evangelho. Qualquer outra configuração, por mais bem-intencionada que seja, é incapaz de portar este significado teológico específico.
  • Nas qualificações ministeriais: As cartas pastorais (1 Timóteo 3, Tito 1) estabelecem que um líder na igreja deve ser “marido de uma só mulher” e governar bem a sua própria casa. Isto não é uma mera regra eclesiástica, mas a reafirmação de que a família criacional é o modelo de saúde e testemunho para a comunidade da aliança.

A distinção entre narrativa e norma

A argumentação do ministro Dino, embora embasada em fatos bíblicos, confunde a narrativa histórica com a norma prescritiva.

A Bíblia narra a poligamia, o concubinato e o adultério para nos ensinar sobre as consequências do pecado e a necessidade de um Redentor. Ela prescreve, desde o Princípio e até o Fim (do Éden ao Apocalipse, onde a Igreja é a Noiva de Cristo), o modelo da aliança fiel entre um homem e uma mulher, padrão este que foi reafirmado pela Lei, exaltado pelos Sábios, defendido pelos Profetas e elevado por Cristo, pois reflete o Seu amor pela Igreja.

Portanto, longe de ser uma construção sociocultural mutável, a “família tradicional” – no sentido bíblico-teológico – é a estrutura familiar instituída por Deus como um reflexo do seu caráter e de sua relação redentora com a humanidade.

Reconhecer este padrão não é negar a complexidade da vida humana caída, mas apontar para a graça restauradora de Cristo, que nos chama a viver de acordo com o seu projeto original de paz, alegria, justiça e plenitude.


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