Graça barata, dopamina barata: quando o prazer esvazia a fé
Graça barata, dopamina barata, por Gustavo Siqueira*
Graça, é um conceito muito importante na teologia cristã. Ela significa “favor imerecido”, ou seja, um ato em favor de alguém que não mereceu e que não tem como pagar. É como acontece na história do “Filho Pródigo”: um filho desonra seu pai, deseja sua morte, gasta seu dinheiro e depois ao retornar para ele é recebido com amor e festa.
Mas, você já ouviu o conceito de “graça barata”? Este conceito é desenvolvido pelo teólogo alemão Dietriech Bonhoeffer em seu livro Discipulado. A graça barata é o seguinte:
“(…) o mundo encontra fácil cobertura para seus pecados dos quais não tem remorsos e não deseja verdadeiramente libertar-se. A graça barata é, por isso, uma negação da Palavra viva de Deus, negação do Verbo de Deus. Significa justificação do pecado, e não do pecador. Tudo pode permanecer como antes (…)” (BONHOEFFER, 2004, p. 9)
E o conceito de dopamina barata, você conhece? De acordo com a psiquiatra Anna Lembke, dopamina é o neurotransmissor que libera a sensação de prazer, recompensa e satisfação em nosso cérebro. E é possível ter essa sensação de diversas maneiras, com estímulos rápidos, como assistindo vídeos curtos no Instagram, e estímulos mais trabalhosos, como uma corrida ou atividades físicas.

A dopamina barata está associada ao primeiro exemplo que dei: é a sensação de prazer e recompensa que sentimos rolando o feed da nossa rede social favorita, comendo aquele bolo de pote de Nutella, aquele hamburguer cheio de gordura ou assistindo pornografia.
Conexões entre a graça barata e a dopamina barata
A esta altura você deve estar se perguntando o que estes conceitos têm a ver um com o outro, além da palavra “barata” que eles têm em comum. Eles são conceitos cunhados em áreas diferentes: a teologia e a psiquiatria, em épocas diferentes: século XX e século XXI, mas que podem conversar e se complementarem.
A graça barata relativiza e desvaloriza o sacrifício de Jesus na cruz em nome de uma autossatisfação. Geralmente quem esvazia a fé cristã de seu valor moral o faz em nome de algum pecado que goste ou se negue a abandonar.
A dopamina barata é a mera busca de prazer imediato e sem muito esforço, feita muitas vezes para negar uma realidade dura e cruel que a pessoa não está dando conta de lidar. Ou seja, trata-se de uma fuga da realidade.
Muitas vezes o barateamento da graça é feito através da busca da dopamina barata, onde o pecador, ao invés de encarar o seu pecado o relativiza, e, fugindo de uma realidade estressante ou angustiante, busca saciedade num prazer imediato: se refugia num consumo exagerado de redes sociais, em páginas da web que alimentam outros abismos dentro de si; se refugia da realidade no consumo exagerado de alimentos cheios de açúcares e gordura, ultraprocessados; busca fugir das dores da vida enchendo carrinhos de compras virtuais na Shoppe ou Shein; busca fugir das tristezas da vida no prazer imediato da pornografia.
As consequências do prazer fugaz
Mas qual o problema disso? Qual o problema da alienação momentânea da realidade e a busca de uma satisfação quase que instantânea no consumo dessa dopamina barata?
Primeiro: esse prazer não dura. Ele vai embora da mesma forma que veio.
Segundo: faz mal para a saúde. Você vai sentir os efeitos negativos físicos e psicológicos desses prazeres instantâneos.
Terceiro: Te aliena de si mesmo, do seu próximo e de Deus, pois a graça barata é pecado.
Da graça barata à graça preciosa
Sei que tudo isso pareceu muito negativo, mas, há um caminho para vencermos essa tendência natural de querer baratear a graça e correr atrás de dopamina barata. O primeiro passo é compreender a graça preciosa:

“(…) é preciosa por custar a vida ao ser humano, e é graça por, assim, lhe dar a vida; é preciosa por condenar o pecado, e é graça por justificar o pecador. Essa graça é sobretudo preciosa por ter sido preciosa para Deus, por ter custado a vida de seu Filho e porque não pode ser barato para nós aquilo que custou caro para Deus. A graça é preciosa sobretudo porque Deus não achou que seu filho fosse preço demasiado caro para pagar pela nossa vida, antes o deu por nós. A graça preciosa é a encarnação de Deus. (BONHOEFFER, 2004, p. 10 e 11).
Precisamos compreender o que a cruz custou para Deus: a morte de Seu Filho. Precisamos compreender que este amor super abundante não pode ser barateado, desvalorizado ou esvaziado deste significado. E a partir desta compreensão, precisamos buscar viver nossa vida à luz desta verdade, encontrando a nossa satisfação em Cristo e fazendo todas as coisas para a glória de Deus.
Uma vida equilibrada, com mais caminhadas ao ar livre e cercado de natureza; uma vida de encontros com pessoas que amamos, desfrutando de tempo de qualidade com elas; uma vida para saborear uma refeição sem distrações, para desenvolver novos hobbies e habilidades, para praticar algum esporte – tudo para a glória de Deus!
*Gustavo Siqueira é pastor, teólogo, professor de História e apresentador do podcast Pocando Suas Ideias (Pocast)
Saiba mais sobre Dietrich Bonhoeffer: