Guardas Municipais assumem protagonismo na segurança capixaba
De impedir um assalto a ônibus até liberar uma via de trânsito intenso para garantir que um coração doado chegasse ao aeroporto a tempo: o trabalho das Guardas Municipais vai muito além da vigilância de praças e patrimônios públicos.
Em Vitória e na Serra, exemplos recentes comprovam como a corporação atua diretamente no cotidiano da população, reforçando que segurança pública não se resume apenas a policiamento e prisões, mas deve ser entendida como um direito coletivo, baseado em prevenção, educação e proximidade com a comunidade.
Este ano, a Guarda Civil Municipal de Vitória (GCMV) protagonizou uma missão emocionante. Sob forte chuva, três equipes do Grupamento Tático Operacional (GTO) abriram caminho para uma ambulância que transportava um coração doado do Hospital São Lucas até o Aeroporto de Vitória.
Sirenes ligadas, semáforos ignorados e vias liberadas pela Central de Monitoramento da corporação: em apenas quatro minutos e meio, o órgão conseguiu entregar o órgão ao avião da Força Aérea Brasileira (FAB), que seguiu para São Paulo.
“Cada segundo é decisivo em uma missão como essa. Saber que contribuímos para salvar uma vida é um valor inestimável para toda a instituição”, afirmou Charles De Marchi, coordenador do GTO.

A comandante da GCMV, Dayse Barbosa, destacou que ações como essa refletem uma política de segurança mais próxima da comunidade.
“A Guarda de Vitória vai além do patrulhamento ostensivo. Atua em mediação de conflitos, projetos educativos em escolas e presença em parques. Essa abordagem comunitária tem dado resultados concretos, como a redução de 46% nos homicídios e 48% na mortalidade no trânsito”, afirmou.
Tecnologia a serviço
Na Serra, a tecnologia reforça a atuação da Guarda. Durante monitoramento de rotina em pontos de ônibus, agentes flagraram quatro homens tentando burlar a roleta de um coletivo.
A ação foi contida de forma remota pela chamada “câmera tagarela”, que permitiu à agente Lima alertar os suspeitos e dispersá-los:
“Boa noite! Este local é monitorado em tempo real pela Guarda Civil Municipal da Serra. Caso seja necessário, enviaremos uma viatura”, anunciou a servidora pelo sistema.
A cidade conta com 210 câmeras ligadas 24 horas ao Centro de Controle Operacional de Videomonitoramento (CCOV), que também utiliza reconhecimento automático de placas (LPR) e radiocomunicação.
Segundo o comandante Diego Nascimento, a tecnologia fortalece o caráter preventivo da corporação:
“A GCM da Serra atua próxima da população, promovendo confiança e cidadania. Somos responsáveis por proteger equipamentos públicos, mas também por garantir que esses espaços sejam usados com tranquilidade. A integração entre tecnologia e presença operacional faz da Guarda uma aliada essencial das demais forças policiais”, explicou.
Ações preventivas essenciais
Além da patrulha ostensiva, as Guardas Municipais desenvolvem funções específicas, como a Patrulha Maria da Penha, que acompanha mulheres sob medida protetiva, reduzindo riscos de violência doméstica.
Essa dimensão preventiva reforça a necessidade de investir em treinamento contínuo e capacitação, preparando agentes não apenas para enfrentar crimes, mas também para mediar conflitos sociais.
A segurança pública, muitas vezes vista apenas como problema a ser resolvido com policiamento e prisões, deve ser compreendida como um direito coletivo que envolve educação, prevenção e acesso igualitário a direitos fundamentais. Nesse cenário, a Guarda Municipal (GCM) se consolida como peça central na construção de uma sociedade mais segura e justa.

O especialista em segurança pública e doutorando da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Rusley Medeiros, ressalta a relevância das Guardas no cenário nacional:
“As Guardas Municipais já são órgãos de segurança pública, conforme a Constituição e a Lei 13.022/14. O Supremo Tribunal Federal reconheceu sua atuação no policiamento ostensivo e comunitário. Sua proximidade com as comunidades as torna fundamentais na prevenção. Em várias cidades, a presença das Guardas já contribui para a redução de crimes violentos”, afirmou.
Medeiros também comparou o modelo brasileiro ao norte-americano:
“Nos Estados Unidos, a polícia local é responsável direta pelas ações de prevenção e repressão. Aqui, ainda carregamos uma cultura centralizada. Mas é inegável que a descentralização e a expansão das Guardas são caminhos para cidades mais seguras”.
Nova lógica de segurança
Do transporte de um coração à mediação em escolas, do monitoramento remoto à proteção de patrimônios públicos, as Guardas Municipais se consolidam como protagonistas de uma nova lógica de segurança: menos repressão e mais prevenção, proximidade e cidadania.
“Vale lembrar que a descentralização na segurança pública, e, com isso, a ampliação das Guardas é uma necessidade para podermos visualizar novas perspectivas de segurança pública e de uma cidade mais segura. Isso é feito com formação adequada, treinamento, equipamentos, armamento e, principalmente, política de proximidade. Uma segurança pública eficaz passa, inevitavelmente, pela relação entre sociedade e polícia. Por isso, não há como concretizar essa realidade sem a presença das Guardas Municipais que, por força de lei e decisão do STF, já possuem competência para atuar na prevenção e preservação da ordem pública nas cidades”, concluiu o especialista.