Jovens lideram casos de ISTs e falta de prevenção preocupa ES

Jovens lideram casos de ISTs e falta de prevenção preocupa ES

“Ah, mas sem é mais prazeroso”. A frase, aparentemente banal, tem custado caro para muitos jovens capixabas que negligenciam medidas de proteção nas relações sexuais e acabam contraindo Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs).

Segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), a faixa etária de 13 a 29 anos é a mais afetada no Espírito Santo. Em 2024, foram registrados 3.130 casos de sífilis entre jovens. No ano anterior, 2023, houve um salto expressivo de 200%, com 3.301 registros. Já em 2022, o cenário havia mostrado queda de 70%, com 2.952 casos notificados.

No caso do HIV/Aids, foram registrados 461 casos em 2022, 444 em 2023 e 420 em 2024, evidenciando uma queda discreta, mas ainda preocupante.

A infectologista Rúbia Miossi, do Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes (Hucam-Ufes), alerta que o excesso de confiança e a falta de informação sobre métodos de prevenção estão entre os principais fatores para esse avanço.

“Apesar de estarmos num momento de grande acesso à informação, a falta de percepção de risco faz os jovens acreditarem que isso não vai acontecer com eles. A maioria não sabe absolutamente nada sobre prevenção combinada: profilaxia pré-exposição (PrEP), vacinas, teste rápido e tratamento de ISTs”, afirma.

Jovens lideram casos de ISTs e falta de prevenção preocupa ES
Infectologista Rúbia Miossi destaca que os aplicativos de relacionamento intensificam o número de parceiros ocasionais

Miossi destaca ainda que os aplicativos de relacionamento intensificaram o número de parceiros ocasionais.

“Na verdade, os aplicativos apenas ampliaram o acesso. Antes deles, os encontros já aconteciam em festas e outros ambientes. O problema é que hoje os jovens se relacionam com completos desconhecidos sem qualquer cuidado prévio. Isso não seria um problema se houvesse testagem, tratamento e uso da PrEP. Mas, para que isso ocorra, é preciso desenvolver a percepção de risco. E isso só vai acontecer se voltarmos a falar abertamente sobre as ISTs”, ressalta.

Álcool, drogas e exposição

O uso de álcool e drogas ilícitas é outro agravante. “O uso de substâncias reduz ainda mais a consciência sobre o risco e aumenta a exposição a situações de perigo, inclusive de abuso sexual. Não podemos apenas responsabilizar a falta do preservativo. Ele é uma medida importante, mas não é a única. A PrEP, por exemplo, evita a infecção pelo HIV e não depende do uso do preservativo. Mas a maioria das pessoas sequer sabe o que é”, completa Miossi.

HPV: inimigo silencioso

Outro inimigo silencioso entre os jovens é o HPV (Papilomavírus Humano). A ginecologista Neide Boldrini, também do Hucam-Ufes, explica que o vírus infecta a pele e as mucosas humanas, causando desde verrugas até câncer. “O HPV pode se manifestar de forma visível, como verrugas, mas também pode ser microscópico, detectado apenas em exames específicos. O principal meio de transmissão é o contato sexual, pois o atrito permite a penetração do vírus no organismo”, alerta.

Desde abril de 2024, o Espírito Santo passou a adotar o esquema de dose única da vacina contra o HPV, oferecida gratuitamente pelo SUS para adolescentes de 9 a 14 anos. A meta é alcançar 80% de cobertura vacinal. O imunizante quadrivalente protege contra os tipos mais comuns e perigosos do vírus, como os responsáveis por verrugas genitais e os que podem causar câncer de colo do útero, ânus, pênis e orofaringe.

Jovens lideram casos de ISTs e falta de prevenção preocupa ES
Ginecologista Neide Boldrini explica que o HPV infecta a pele e as mucosas humanas, causando desde verrugas até câncer

“Apesar da eficácia da vacina, o uso do preservativo continua sendo fundamental. O HPV possui diversos subtipos, e apenas a vacina garante proteção contra os que estão incluídos no imunizante. Por isso, camisinha é indispensável”, reforça Boldrini.

Estrutura de atendimento no ES

Atualmente, apenas o HIV/Aids e a sífilis são de notificação compulsória no Espírito Santo. O tratamento é disponibilizado em 31 Serviços de Atendimento Especializado (SAE) espalhados pelo Estado, além das Unidades Básicas de Saúde e dos Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA), onde também são realizados testes rápidos de HIV, sífilis e hepatites B e C — todos gratuitos.

Preservativos também são distribuídos sem custo nas unidades de saúde dos 78 municípios capixabas, em parceria entre o Ministério da Saúde e a Sesa.

Para reverter a queda no uso de preservativos, o Ministério da Saúde passou a distribuir dois novos modelos de camisinha: texturizada e fina. A medida busca atrair especialmente o público jovem, que tem abandonado o uso do método nos últimos anos.

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS/IBGE), realizada em 2019, 59% dos brasileiros com mais de 18 anos afirmaram não ter usado preservativo em nenhuma relação sexual nos 12 meses anteriores. Apenas 22,8% relataram uso em todas as relações, enquanto 17,1% afirmaram usar às vezes.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) também apontou em 2024 a queda global no uso da camisinha, agravada após a pandemia de Covid-19. A expectativa do governo brasileiro é distribuir 400 milhões de unidades neste ano, integrando a estratégia de Prevenção Combinada, que inclui preservativos, PrEP, PEP (profilaxia pós-exposição), diagnóstico precoce, tratamento e vacinação.

Informação que salva vidas

Os números confirmam o alerta: os jovens estão no centro da epidemia de ISTs no Espírito Santo. Para a infectologista Rúbia Miossi, a solução passa por mais informação, diálogo e acesso às ferramentas de prevenção. “Não basta apenas entregar preservativos. É preciso falar com os jovens na linguagem deles, mostrar a realidade e criar campanhas permanentes de conscientização. A informação salva vidas”, conclui.