Mais de 10 mil capixabas buscaram ajuda para parar de fumar nos últimos 2 anos
Parar de fumar nunca é simples, mas milhares de capixabas vêm buscando apoio para largar o cigarro. No dia 29 de agosto, celebra-se o Dia Nacional de Combate ao Fumo, data que conscientiza sobre os riscos desse vício. Segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde (Sesa), nos últimos dois anos e meio, mais de 10 mil capixabas procuraram tratamento no Espírito Santo pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para parar de fumar. De janeiro a abril deste ano, 1.449 pessoas sendo 674 homens e 775 mulheres foram atendidos pelo Programa Estadual de Tabagismo, presente em 67 municípios.
Os números vêm crescendo. Em 2023, foram 4.578 pacientes em acompanhamento. Em 2024, o total saltou para 5.123 pessoas, quase 12% a mais. O desafio é enorme: o cigarro contém mais de 4 mil substâncias tóxicas e está diretamente ligado a doenças cardiovasculares e à maioria dos casos de câncer de pulmão.
O tabagismo é considerado uma doença crônica, provocada pela dependência da nicotina. Essa substância psicoativa leva de 7 a 19 segundos para chegar ao cérebro, liberando neurotransmissores ligados ao prazer. O alívio momentâneo, no entanto, cobra um preço alto.
Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), o tabaco mata mais de 8 milhões de pessoas por ano no mundo. No Brasil, são 156 mil mortes anuais associadas ao cigarro.
A psicóloga psicanalista Mariana Weigert de Azevedo afirma que a decisão de largar o cigarro começa antes de qualquer medicação ou terapia.
“O primeiro passo é reconhecer o desejo de parar. O cigarro não é apenas um hábito, mas ocupa um lugar simbólico, funcionando como válvula de escape para a ansiedade, para o vazio ou até como sensação de pertencimento. Nomear o que o cigarro significa abre espaço para uma decisão mais consciente, menos impulsiva e com maiores chances de se sustentar”.
Dependência
Weigert explica que o tratamento precisa lidar com duas dimensões: a dependência física e a dependência psicológica. “A nicotina age quimicamente no corpo, mas o gesto, o ritual e a ilusão de controle precisam ser trabalhados em terapia. Do contrário, o fumante pode apenas substituir o cigarro por outro comportamento compulsivo”.
Muitos pacientes enfrentam recaídas no início do tratamento. Para a psicóloga, isso não deve ser encarado como fracasso. “A recaída pode ser entendida como um retorno ao conhecido. Não significa desistência, mas que algo ainda precisa ser elaborado. É nesse movimento que o processo se fortalece, sustentado não pela perfeição, mas pela possibilidade de recomeçar”.
O otorrinolaringologista Bernardo Ramos, doutor pela USP, ressalta os impactos devastadores do tabaco para o sistema respiratório. “A fumaça do cigarro compromete as células ciliadas e o sistema imune. O tabagismo passivo está ligado a pneumonia, asma, sinusites e até à morte súbita infantil. Em crianças, pode gerar acúmulo de secreção nos ouvidos, prejudicando a audição e o desenvolvimento da fala”.
Impactos emocionais na família
A psicóloga clínica Ana Café, especialista em dependência química, alerta também para os impactos emocionais. “Pais fumantes precisam ter consciência de que a fumaça exalada, somada à que sai da ponta do cigarro, contém mais de 7 mil substâncias químicas, sendo cerca de 70 cancerígenas. Além disso, muitas crianças e adolescentes aprendem a fumar dentro de casa, associando o cigarro a relaxamento e bem-estar”.
A médica sanitarista Milena Maciel de Carvalho, pesquisadora da Fiocruz, defende ambientes 100% livres de tabaco. “Não existe ‘um cigarro só’ ou fumar perto da janela. Qualquer exposição é prejudicial. Garantir ambientes sem fumaça é a principal estratégia de prevenção, como já prevê a Lei nº 12.546”.
O cigarro está associado a diversos tipos de câncer, como lembra a oncologista Bruna Carone, do Instituto de Oncologia de Sorocaba. “Além do pulmão, o tabagismo está ligado a câncer de boca, língua, laringe, faringe, esôfago, bexiga, pâncreas e até leucemia mieloide crônica. Também aumenta o risco de câncer do colo do útero. Em cinco anos já há redução significativa dos riscos. Em dez, a chance de câncer diminui, e após 20 anos, o risco se aproxima do de quem nunca fumou”.
“Não existe dose segura de cigarro”
O oncologista Fernando Zamprogno, da Rede Meridional, reforça que “não existe dose segura de cigarro”. “O correto é fumo zero para todos, inclusive o passivo. A fumaça permanece no ar, é absorvida pelo pulmão e se espalha pelo sangue, atingindo outros órgãos”.
A pneumologista Jessica Polese, também da Rede Meridional, chama atenção para os impactos do tabagismo no organismo, mesmo sem colocar o cigarro na boca. “O tabagismo passivo é responsável por rinite, asma, bronquite e pneumonia em jovens. Muitos desenvolvem Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) na vida adulta, mesmo sem nunca terem fumado.”
Além do cigarro convencional, os dispositivos eletrônicos para fumar (DEFs), popularmente conhecidos como cigarros eletrônicos, preocupam autoridades. Recentemente, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) determinou que plataformas como YouTube, Instagram e Mercado Livre retirem anúncios e conteúdos relacionados aos DEFs. A Anvisa mantém proibida a fabricação, importação, comercialização e propaganda desses dispositivos no Brasil.
Polese alerta para a falsa sensação de segurança: “Os cigarros eletrônicos parecem inofensivos, mas contêm partículas finas, metais pesados e até substâncias cancerígenas. O problema é que têm atraído jovens e adolescentes.”