Reflexão baseada no texto As contradições da paternidade, de Herley Rocha Souza*
1. Força e fragilidade na missão de ser pai
“Um pai precisa ter braços fortes para proteger os filhos dos perigos, mas também braços frágeis e acolhedores para acalmá-los quando o perigo passa”.
A Palavra de Deus nos lembra em Salmo 127, versículo 4, que “como flechas na mão do guerreiro, assim são os filhos da mocidade”. O pai é chamado a ser esse guerreiro que protege, que defende, que guarda seus filhos dos perigos do mundo. Mas também, como diz o profeta Isaías, no capítulo 66, versículo 13: “Assim como a mãe consola o seu filho, assim eu os consolarei”. A paternidade também é acolhimento, consolo e ternura.
O teólogo John Piper comenta que a masculinidade bíblica é marcada tanto pela coragem de lutar quanto pela ternura de cuidar. Ele afirma: “O verdadeiro homem de Deus é aquele que sabe quando empunhar a espada e quando estender os braços em abraço”.
Assim, o pai vive esse paradoxo: ser fortaleza e ao mesmo tempo refúgio de ternura.
2. Firmeza e sensibilidade nas palavras
Herley Rocha é teólogo e pastor na Igreja Presbiteriana Parque das Nações
“Um pai precisa ser firme em sua voz para guiar, mas sensível em suas palavras para consolar”.
Em Efésios 6, versículo 4, Paulo orienta: “Pais, não provoqueis vossos filhos à ira; mas criai-os na disciplina e admoestação do Senhor”. Há uma firmeza necessária, mas essa firmeza deve estar mergulhada em amor.
João Calvino, em seu comentário sobre Efésios, diz que o pai deve conduzir os filhos “não pelo rigor da tirania, mas pela brandura da instrução no Senhor”. Para Calvino, a voz do pai é guia, mas deve ser temperada pela graça.
Isso nos mostra que a firmeza que orienta precisa andar de mãos dadas com a doçura que consola.
3. Presença nas alegrias e frustrações
“Um pai precisa vibrar com as conquistas dos filhos, mas também ser equilibrado para ajudá-los a lidar com as frustrações”.
Em Romanos 12, versículo 15, Paulo exorta: “Alegrai-vos com os que se alegram; chorai com os que choram”. A paternidade é exatamente esse compartilhar de emoções — celebrar as vitórias, mas também sustentar nas derrotas.
Herman Bavinck, teólogo reformado holandês, lembra que a educação cristã não é apenas formar caráter, mas preparar os filhos para o realismo da vida. Ele escreve: “O lar é a escola da vida, onde aprendemos tanto a alegria quanto a dor sob a luz da providência de Deus”.
Um pai, portanto, é aquele que ensina que cada vitória vem pela graça, e cada frustração é oportunidade de amadurecimento.
4. Equilíbrio entre autoridade e humildade
“Um pai precisa ser referência de autoridade, mas ao mesmo tempo, modelo de humildade, reconhecendo seus próprios erros diante da família”.
Jesus ensina em Marcos 10, versículo 43: “Quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva”. A autoridade cristã é sempre exercida com espírito de serviço.
O reformador Martinho Lutero dizia que o pai é chamado a ser “bispo do lar”, mas lembrava que essa autoridade só é legítima quando refletida em humildade. Lutero reconhecia que até mesmo o chefe da família deve confessar seus erros e pedir perdão, dando exemplo de vida cristã real.
Assim, o pai mostra que não é infalível, mas aponta para o único que é perfeito: Cristo.
5. O desafio da provisão e da presença
“Um pai precisa trabalhar duro para prover, mas também reservar tempo para estar presente, mostrando que sua presença vale mais do que qualquer provisão”.
Tim Keller ressalta que os filhos precisam mais da presença dos pais do que de uma promoção em seus empregos
A Escritura ensina em 1 Timóteo 5, versículo 8: “Se alguém não cuida dos seus e especialmente dos da própria casa, tem negado a fé e é pior do que o descrente”. Sim, o trabalho e o sustento são deveres sagrados. Mas a Palavra também nos lembra, em Salmo 128, que a verdadeira bem-aventurança da família não está apenas no pão que se coloca à mesa, mas na comunhão ao redor dela.
Tim Keller comenta que a idolatria do trabalho é um dos maiores perigos do nosso tempo, porque pais acabam sacrificando presença em nome da provisão. Ele escreve: “Seus filhos precisam mais da sua presença no sofá do que da sua promoção no escritório”.
Prover é necessário, mas presença é insubstituível.
6. Paternidade é liderança e dependência
“Um pai precisa carregar o peso de liderar, mas também aprender a depender do Pai celestial, que o sustenta em suas fraquezas”.
Em 2 Coríntios 12, versículo 9, o Senhor disse a Paulo: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. A liderança paterna é sempre limitada, porque todo pai humano precisa se render ao Pai eterno.
Jonathan Edwards escreveu que “a verdadeira fortaleza do homem está em reconhecer sua dependência de Deus”. Ou seja, a paternidade cristã é um constante exercício de humildade e fé.
O pai lidera, mas sempre debaixo da liderança maior do Pai celestial.
Entre força e fragilidade, Cristo é sempre a referência da paternidade
“E assim, ser pai é viver no fio entre força e fragilidade. É carregar o peso de proteger e prover, mas também ter o coração aberto para abraçar e consolar. É sorrir diante dos filhos, mesmo quando por dentro existe cansaço e dor.
A paternidade é cheia de paradoxos, mas isso não é sinal de fracasso, é sinal de humanidade. No fim, cada tensão que o pai vive é um lembrete de que ele não é o herói da história: Cristo é”.