O barulho das igrejas e o amor ao próximo

O barulho das igrejas e o amor ao próximo

O barulho das igrejas e o amor ao próximoÉ uma cena comum em muitas cidades brasileiras: uma igreja pequena, muitas vezes improvisada em um salão alugado ou numa garagem, que se torna ponto de encontro de irmãos e irmãs para cantar louvores e ouvir a Palavra. Mas, ao lado desse testemunho de fé, surge também uma queixa frequente: o barulho que ultrapassa as paredes e incomoda a vizinhança.

Recentemente, o ES Hoje publicou uma matéria que trata da reclamação de moradores da Grande Vitória em relação ao barulho que vem dos cultos e em relação a outros transtornos relacionados às igrejas, como o trânsito e o estacionamento nas ruas para os fiéis.

Na maioria dos casos, não há má-fé. Pelo contrário: igrejas querem ser bênção, não motivo de transtorno. Contudo, ainda que involuntário, o excesso de som pode se transformar em fardo para quem mora ao redor. O que a Bíblia nos ensina sobre esse dilema?

O cumprimento da Lei é o amor

O apóstolo Paulo declara em Romanos 13:10: “O amor não pratica o mal contra o próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor”.

Nesta passagem, Paulo fala do amor como cumprimento da Lei moral, que se resume nos mandamentos de não prejudicar o próximo. Aqui não é apenas amor subjetivo, mas concreto, evitando qualquer mal ou dano.

Ao comentar Romanos 13.10, Calvino explica que “a caridade nunca causa dano, mas sempre promove o bem-estar do próximo”. Ou seja, o amor não é só interno, mas se expressa em atitudes concretas que evitam causar transtornos.

Assim, se o barulho prejudica a vida dos vizinhos, o amor cristão nos convoca a repensar nossas práticas.

Humildade que considera o outro

O barulho das igrejas e o amor ao próximo
Na maioria das cidades capixabas o limite é de 55 decibéis de dia e 55 db à noite

Em Filipenses 2:4, Paulo exorta: “Cada um não atente somente para o que é seu, mas cada qual também para o que é dos outros”.

Aqui, Paulo exorta os Filipenses à humildade e à consideração pelos interesses dos outros, tomando Cristo como modelo de esvaziamento de si mesmo.

Matthew Henry destaca que “não devemos apenas olhar o que é conveniente para nós, mas também considerar como nossas ações afetam os outros”. Aqui há um princípio de empatia cristã que se aplica diretamente ao barulho: o culto não pode se tornar peso para quem não participa dele.

Na prática, isso significa que a alegria de cantar ao Senhor não pode ignorar a realidade daqueles que precisam dormir, trabalhar ou estudar ao lado do templo.

Liberdade que edifica

Na carta aos Coríntios, Paulo lembra: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm; todas as coisas me são lícitas, mas nem todas edificam. Ninguém busque o proveito próprio; antes cada um o que é de outrem” (1Co 10:23-24).

Nesta passagem, Paulo trata do uso da liberdade cristã em questões de consciência. Mesmo que algo seja legítimo (como cantar louvores), deve-se avaliar se isso edifica ou pode se tornar pedra de tropeço para o próximo.

Em seu comentário, John Stott nota que a liberdade cristã deve ser regulada pelo amor, de modo que o “direito de adorar” nunca se torne um meio de ferir o próximo.

Ou seja, ainda que seja legítimo amplificar o som dos instrumentos no louvor, é necessário avaliar se isso está abençoando ou trazendo transtornos para a comunidade ao redor (se edifica ou se é pedra de tropeço).

Amor a Deus e amor ao próximo

O próprio Senhor Jesus resumiu a Lei em dois mandamentos: “Amarás o Senhor teu Deus… e amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22:37-40).

O barulho das igrejas e o amor ao próximo
O culto verdadeiro não pode isolar o amor a Deus do cuidado prático pelos nossos vizinhos

Jesus resume a Lei em amor a Deus e amor ao próximo. Um culto que ama a Deus não pode ser desconectado do amor ao próximo.

Herman Bavinck ressalta que a verdadeira piedade é sempre “teocêntrica e ao mesmo tempo social”, de forma que o culto a Deus tem implicações éticas em como tratamos o próximo. Em outras palavras, o culto verdadeiro não pode isolar o amor a Deus do cuidado prático pelos nossos vizinhos.

O testemunho público

Um detalhe sábio de Provérbios nos alerta: “Não seja frequente na casa do seu próximo, para que ele não se canse de você e passe a detestá-lo” (Pv 25:17).

Eis um princípio de sensibilidade para com os limites do próximo. Aqui não se trata de barulho diretamente, mas traz o espírito de não desgastar nem importunar o vizinho.

Se até as visitas precisam de moderação para não se tornarem peso, quanto mais o culto, que deve ser testemunho da graça, do amor e da luz de Cristo.

Tim Keller lembra que as igrejas urbanas devem ser “benção para o bairro”, refletindo o caráter de Cristo não só em pregação, mas também em convivência pacífica.

Caminhos de aplicação

Diante disso, sugerimos algumas aplicações às igrejas que se encontram nessa situação, recebendo reclamações legítimas de seus vizinhos pela falta de bom-senso em relação ao som e a outras questões.

O barulho das igrejas e o amor ao próximo
O Evangelho fica desacreditado quando a igreja é conhecida mais pelo barulho do que pela bênção que traz ao bairro

Primeiro é preciso reconhecer o problema: ainda que involuntário, o barulho excessivo pode ser visto como uma forma de “mal contra o próximo” (Rm 13:10). Amar o próximo implica em se esforçar para minimizar esse impacto.

É necessário, é plausível e é completamente possível de se buscar soluções práticas: isolamento acústico, horários respeitosos para os cultos, treinamento da equipe de som e até diálogo aberto com a vizinhança. Isso demonstra consideração pelos interesses dos outros (Fp 2:4) e são expressões concretas de amor cristão.

É preciso regular a liberdade pelo amor e com sabedoria: mesmo sendo legítimo cantar alto, tocar bateria e amplificar instrumentos, a igreja deve avaliar se isso edifica ou causa tropeço (1Co 10:23-24). E, com amor a Deus e ao próximo, tomar as providências cabíveis.

É necessário valorizar o testemunho público: o evangelho é desacreditado quando a igreja é conhecida mais pelo barulho do que pela bênção que traz ao bairro. Ser “sal e luz” inclui não ser motivo de aborrecimento desnecessário (Mt 5:16; Pv 25:17). A igreja deve ser lembrada mais pelo amor e pelo serviço do que pelo barulho.

Conclusão: o Evangelho

Acredito que as igrejas não desejam incomodar seus vizinhos. Mas, ao reconhecer que o culto verdadeiro a Deus envolve também o amor prático ao próximo, cada comunidade pode – e deve – se empenhar em encontrar caminhos que glorifiquem a Deus e tragam paz à vizinhança.

Assim, cumprir o grande mandamento de Jesus — amar a Deus e ao próximo — significa que até mesmo o volume do som do culto pode ser uma expressão de amor, de sensibilidade e de testemunho do Evangelho.

O chamado bíblico é que as igrejas não só preguem a boa notícia do Evangelho de Cristo, mas também sejam essa boa notícia para seus vizinhos, a começar pela forma como os tratam — inclusive no cuidado com o barulho.

*Gustavo Gouvêa é jornalista, teólogo, mestre em Ciências Sociais e membro da Primeira Igreja Batista de Vitória