Segundo a petição, Mayla teria feito publicações em redes sociais chamando o bispo de “comunista” e afirmando que “um dos sinais visíveis da possessão diabólica é a aversão ao latim, língua pátria da Igreja”. Para o bispo e a Diocese, as declarações extrapolam a crítica política e configuram ofensa direta à honra.
Mayla, por sua vez, nega ter citado o bispo e afirma que suas falas foram retiradas de contexto. Disse ainda ter sofrido “retaliação pastoral”, sendo proibida de atuar como cantora e organista em sua paróquia, e alegou que não houve diálogo ou tentativa de reconciliação antes da ação judicial.
O episódio levanta uma questão sensível: afinal, cristãos devem processar outros cristãos na justiça comum? O que a Bíblia Sagrada diz sobre isso?
O ensino bíblico em 1 Coríntios 6
A principal passagem bíblica sobre o tema está em 1 Coríntios 6.1-7, onde Paulo repreende duramente os irmãos que levavam uns aos outros aos tribunais romanos por questões da vida cotidiana. Para o apóstolo, isso era uma derrota espiritual: “Por que não sofrer a injustiça? Por que não ficar com o prejuízo?”.
Quando algum de vocês tem um desentendimento com outro irmão, como se atreve a recorrer a um tribunal e pedir que injustos decidam a questão em vez de levá-la ao povo santo? Vocês não sabem que um dia nós, os santos, julgaremos o mundo? E, uma vez que vocês julgarão o mundo, acaso não são capazes de decidir entre vocês nem mesmo essas pequenas causas? Não sabem que julgaremos os anjos? Que dizer, então, dos desentendimentos corriqueiros desta vida?
Se vocês têm conflitos legais, por que levá-los para fora da igreja, a juízes que não fazem parte dela? Digo isso para envergonhá-los. Ninguém entre vocês tem sabedoria suficiente para resolver essas questões? Em vez disso, um irmão processa outro irmão diante dos descrentes! O simples fato de terem essas ações judiciais entre si já é uma derrota para vocês. Por que não aceitar a injustiça sofrida? Por que não arcar com o prejuízo? (1 Coríntios 6:1-7 NVT)
Reverendo Ageu Magalhães
O reverendo Ageu Magalhães enfatiza que o ensino bíblico é claro: os conflitos entre cristãos devem ser resolvidos dentro da própria igreja, com a mediação de sua liderança. Acionar tribunais seculares expõe o nome da igreja de Cristo ao escárnio público e envergonha o Evangelho.
“O primeiro passo é considerar sofrer o prejuízo, por amor ao Reino. Se isso não for possível, o caminho é levar o assunto à direção da Igreja para que um tribunal eclesiástico seja constituído. Se os envolvidos forem crentes de igrejas diferentes, os tribunais de cada igreja se comunicam para ouvir as partes e resolver a questão. O que não pode acontecer é expor o nome da igreja de Cristo perante tribunais constituídos por não crentes. Isso é uma vergonha para o Evangelho”, afirma Magalhães.
Questões mínimas e causas graves
Já os pastores Saulo Daniel e Douglas Gonçalves chamam atenção para um ponto importante: Paulo não está tratando de crimes, mas de questões mínimas, que poderiam e deveriam ser resolvidas internamente. Litígios financeiros pequenos ou desentendimentos cotidianos não devem ir parar na justiça comum.
Pastor Saulo Daniel
“Paulo não está falando de abafar casos. Ele está advertindo sobre causas de menor importância. É uma questão mínima quando há um problema suficientemente plausível de ser resolvido entre vocês… quando a injustiça pesa apenas para você”.
Porém, eles alertam contra o uso indevido desse texto para abafar escândalos graves, como abuso sexual, violência doméstica ou golpes contra a comunidade. Nessas situações, preservar o agressor é prejudicar todo o rebanho.
“Abusadores têm que ser levados à polícia, têm que ser levados ao tribunal. Estupradores, maridos violentos que batem nas esposas, têm que ser levados à polícia (…) Quem preserva o lobo, condena o rebanho”, afirmam.
Quando a justiça comum é necessária
O pastor Yago Martins segue a mesma linha. Em sua análise, Paulo repreende processos judiciais entre irmãos por motivos financeiros e triviais, mas não proíbe que cristãos acionem as autoridades em casos de crime.
“Ir ao tribunal com o irmão cristão por causa de uma questão trivial já é em si uma derrota para ambas as partes envolvidas. É preferível dentro da ética cristã sofrer um prejuízo, sofrer uma injustiça, do que expor a igreja”.
Ele lembra que, segundo Romanos 13, o Estado é “ministro de Deus” para punir o mal. Assim, crimes como abuso sexual, violência doméstica ou fraudes de grande escala não podem ser simplesmente “resolvidos na igreja”. Nesses casos, recorrer à justiça não é vingança, mas proteção da vítima e da sociedade.
Pastor Yago Martins
“Violência doméstica, abuso sexual e questões similares são atos criminosos. Quando a igreja tenta resolver internamente atos criminosos, sem levar isso para a justiça, aí é a igreja invadindo o que é do governo (…) O governo é ministro de Deus para punir quem faz o mal. Atos criminosos devem ser tratados na esfera do governo, não apenas dentro da igreja”.
Conclusão
À luz da Bíblia e das reflexões de teólogos e pastores contemporâneos, o princípio é claro:
Questões menores entre cristãos devem ser resolvidas dentro da comunidade de fé, buscando diálogo, mediação pastoral e, se necessário, aceitando o prejuízo por amor à unidade da igreja.
Questões graves e criminosas, porém, precisam ser levadas à justiça comum, para que haja proteção das vítimas, reparação do dano e testemunho de justiça diante da sociedade.
O caso de Cachoeiro expõe a tensão entre o ensino bíblico e a realidade das disputas modernas. Ele nos lembra que, como cristãos, somos chamados a preservar a unidade da igreja e a buscar reconciliação, mas também a não encobrir pecados graves que ferem a dignidade humana e a santidade do Evangelho.