O chamado do Evangelho de Jesus para nos tornarmos como crianças
Em meio às cores, aos brinquedos e às festas que marcam o Dia das Crianças, há um chamado que atravessa os séculos — e que ecoa mais forte do que qualquer presente: o convite de Jesus para que nos tornemos como crianças. Em um tempo que exalta a independência, a performance e o poder, o Evangelho de Cristo nos lembra que a verdadeira grandeza se revela na pequenez, na humildade e na dependência confiante diante do Pai.
O Dia das Crianças, celebrado no Brasil desde 1924, nasceu com o propósito de valorizar a infância, mas acabou sendo, ao longo do tempo, fortemente marcado pelo consumo. No entanto, a data vem sendo ressignificada por inúmeras ações sociais, realizadas em comunidades, igrejas e instituições, que buscam restaurar a dignidade e a alegria da infância. E é justamente nesse ponto que a fé cristã encontra o seu sentido mais profundo: cuidar dos pequenos é viver o Evangelho.
Mas o ensinamento de Jesus vai além de um simples chamado à proteção das crianças. Ele é também uma convocação à transformação do coração.
Tornar-se como criança
Em Mateus 18, quando os discípulos discutiam quem seria o maior no Reino dos céus, Jesus colocou uma criança no centro do grupo e declarou:
“Se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos céus” (Mt 18:3)

João Calvino comenta que Cristo “não exalta a ignorância infantil, mas a humildade que se curva diante de Deus”. Em outras palavras, Jesus não nos convida a sermos imaturos, mas a renunciarmos ao orgulho e à autossuficiência que nos impedem de depender da graça.
A fé infantil é o oposto da fé arrogante. Jonathan Edwards, no século XVIII, escreveu que “a fé verdadeira é como a da criança — não porque seja ingênua, mas porque confia plenamente no Pai”. É essa disposição de confiança e entrega total que marca os que pertencem ao Reino.
Tornar-se como criança é, portanto, converter-se da pretensão à dependência, da soberba à simplicidade, da autossuficiência à confiança. O cristão maduro é aquele que volta ao colo do Pai e reconhece que nada pode sem Ele.
Receber o Reino como uma criança
Em Marcos 10:13–16, Jesus não apenas acolhe as crianças, mas se indigna quando os discípulos tentam afastá-las.
“Deixai vir a mim os pequeninos e não os impeçais, porque dos tais é o Reino de Deus. Em verdade vos digo que qualquer que não receber o reino de Deus como uma criança, de modo algum entrará nele” (MC 10:14-15)

E R.C. Sproul, em Faith Alone, afirma que o Reino não é ganho, é recebido. “A infância espiritual é a postura da graça — dependência e gratidão, não mérito e obra”. Martyn Lloyd-Jones reforça a ideia dizendo que “a criança nada traz; apenas estende as mãos”. Assim é aquele que crê: a fé verdadeira é uma mão vazia que se abre diante de Deus.
O Evangelho não é um prêmio para quem se esforça, mas um presente recebido por quem confia. Receber o Reino como uma criança é abandonar toda pretensão de mérito e reconhecer que a salvação é dom da graça — somente pela fé, somente por Cristo.
A grandeza dos pequenos
Herman Bavinck escreveu que “a fé infantil é a mais elevada forma de fé, porque nela o crente cessa de olhar para si mesmo e se lança inteiramente sobre a graça do Pai”. Essa dependência absoluta é o cerne da vida cristã.

O Dia das Crianças, portanto, não é apenas uma celebração social — é uma lembrança espiritual: Deus escolheu os pequenos para revelar Sua grandeza. A criança representa o coração que confia, que se alegra e que obedece com pureza.
Em tempos de incredulidade, ansiedade e autossuficiência, a voz de Cristo continua ecoando: “Se não vos tornardes como crianças…” É um convite à humildade, à simplicidade da fé, à restauração da alegria e à confiança no cuidado do Pai celestial.
O retorno ao colo do Pai
Enquanto muitos celebram o Dia das Crianças com presentes e festas, o Evangelho nos convida a algo mais profundo: voltar ao colo de Deus. A maior dádiva que uma criança pode receber — e que todo adulto precisa redescobrir — é o amor do Pai revelado em Cristo Jesus.
Ser como criança é reconhecer que não temos o controle, mas temos um Pai fiel. É saber que a graça é maior do que o medo, e que a salvação não se conquista, mas se recebe de mãos abertas e coração humilde.
Que neste Dia das Crianças sejamos lembrados de que o Reino dos céus pertence aos pequenos — e que cada vez que acolhemos uma criança, ou nos deixamos transformar como uma delas, recebemos o próprio Cristo.
“A grandeza no Reino é uma questão de pequenez diante de Deus” (João Calvino)
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