O dilema do “nacionalista cristão” brasileiro hoje
O dilema do nacionalista cristão brasileiro hoje, *Por Saulo Silva
O relacionamento diplomático entre Brasil e Estados Unidos da América é bicentenário. Estudiosos marcam o início dessa interação com o reconhecimento da independência do Brasil por parte dos EUA no ano de 1824.
A partir de então, Yankees e brasucas construíram laços fraternais em diversas áreas, inclusive no âmbito religioso, quando missionários americanos, tais como William Buck Bagby acompanhado de sua esposa Anne Luther Bagby, vêm ao Brasil e em setembro de 1871 fundam a primeira Igreja Batista do Brasil, em Santa Barbara do Oeste, São Paulo. Posteriormente, missionários de outras denominações também aportaram em nosso solo, como é o caso de religiosos Presbiterianos, Congregacionais e Metodistas.
Desde o início, o alinhamento com os EUA é pavimentado por uma via que também conta com sinalizações religiosas, à direita e à esquerda. Nos últimos dias, quando o presidente norte-americano Donald Trump impôs tarifas aos produtos brasileiros que chegam nas terras do Tio Sam, considerando as articulações feitas por Eduardo Bolsonaro (filho do ex-presidente Bolsonaro), muitos evangélicos, sobretudo aqueles que apoiam o ex-presidente Jair Bolsonaro, ficaram sem saber como se posicionar.
Isso porque as medidas do Republicano americano têm como fachada uma demonstração de retaliação ao que vem acontecendo ao Bolsonaro junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), mais especificamente na figura do ministro Alexandre de Moraes, relator do processo que pode levar à prisão do ex-presidente, caso seja condenado. Muito embora no último dia 5 de agosto Moraes tenha decretado a prisão domiciliar de Bolsonaro, tal medida não ocorreu por conta de qualquer condenação em processo, mas sim por um suposto descumprimento de medida cautelar imposta pelo próprio ministro.
Mas na realidade, para além da fachada, o que impulsiona o interesse de Trump é cumprir o seu slogan de campanha: “Make America Great Again”, em português: Torne a América Grande Novamente. E para isso, reagirá contra quem se colocar no seu caminho, como foi o caso do presidente Lula, que em recente encontro dos BRICS aqui no Brasil, mais uma vez criticou o governo norte-americano e defendeu a inútil e isolada ideia de “desdolarização” do comércio mundial. Soma-se a isso, o fato de Trump já estar de olho nas terras raras do Brasil, assim como está fazendo com a Ucrânia. Talvez, dessa vez, não venham missionários para o Brasil, mas sim garimpeiros.
É importante lembrar que boa parte dos eleitores de Bolsonaro se consideram cristãos, e ecoam o seu mantra: Deus, pátria, família e liberdade. Com isso, o dilema está posto. Se por um lado existir o apoio ao tarifaço de Trump, não se apoia a pátria, uma vez que esta medida do norte-americano prejudica empresas e produtores brasileiros. Por outro lado, o não apoio às medidas de Trump pode ser interpretado como não apoio a Bolsonaro.

Qual é a solução para isso?
Como apoiar Bolsonaro e tentar livrá-lo de uma condenação no STF, e ao mesmo tempo não aceitar as medidas do presidente americano, que visam defender o ex-presidente brasileiro? A resposta não é cartesiana. Mas parece que os apoiadores da direita contam com um eventual recuo do ministro Alexandre para aplacar o ímpeto de Trump de “fazer a América grande novamente” às custas do povo brasileiro.
Ao acuar o ministro Moraes com a sanção da lei Magnitsky, Trump aplica uma verdadeira injeção de ânimo nos bolsonaristas, e que por conta disso, se enchem de esperança, voltam às ruas em manifestação pacífica, como foi o caso do dia 3 de agosto, e fazem obstrução no Congresso Nacional, agora com a proposta de um “pacto pela paz”, baseada em três pautas: anistia ampla, geral e irrestrita aos condenados do dia 8 de janeiro; impeachment do ministro Alexandre de Moraes; e também uma mudança em relação ao foro privilegiado.
Independentemente do que possa vir a acontecer, o fato é que as tarifas de importação de 50% impostas pelos EUA sobre produtos brasileiros entraram em vigor no dia 6 de agosto. Em duzentos anos de relacionamento entre Brasil e EUA esse atrito é uma marca sem precedentes na história, e ainda não se vislumbra as últimas páginas dessa história, que pode ganhar acentos mais profundos a depender do que vai acontecer com o ex-presidente Bolsonaro e o humor imprevisível do presidente Donald Trump.
Nessa sinuca de bico, o Zé Carioca entrou em uma bola dividida e foi jogado para o escanteio mais uma vez.