O “pastor de calcinha” e a crise de autenticidade nos púlpitos
O caso do chamado “pastor de calcinha” — vídeos íntimos que viralizaram nas redes sociais e mostraram um líder religioso em roupas femininas — provocou uma onda de debates no meio evangélico. Mais do que um escândalo pontual, o episódio revelou sintomas de uma crise mais profunda sobre espiritualidade, saúde emocional e autenticidade de quem ocupa os púlpitos no Brasil.
Ausência de evangelho vivido
Na análise dos pastores Carlos Bezerra Jr., Caio Fábio e Rodrigo Mocelin, o episódio vai muito além de uma situação constrangedora. Ainda que em tons diferentes, os três apontam a mesma raiz do problema: a ausência de uma experiência genuína com o Evangelho. Eles enxergam um problema de autenticidade.
“Essas pessoas não se converteram, elas se tornaram apenas gente de igreja”, disse Caio Fábio, para quem muitos líderes são movidos pela busca de títulos, prestígio e reverências, mas não pelo discipulado autêntico.

Mocelin, por sua vez, destacou que o caso é “fruto da religião-espetáculo”, em que a performance diante do público se sobrepõe à vida real. “Quanto mais se exige uma imagem perfeita, mais se empurra para debaixo do tapete a vulnerabilidade humana”.
Já Bezerra Jr. apontou a fragilidade estrutural que forma líderes despreparados, tanto espiritual quanto emocionalmente. Para ele, esses líderes estão fadados a incoerências que, cedo ou tarde, explodem publicamente.
Estruturas que produzem incoerência
Outro ponto comum na análise é a crítica ao modelo de liderança vigente em muitos espaços evangélicos. Caio Fábio vê na obsessão por hierarquia e reverências um terreno fértil para a incoerência: “Quanto mais recebem tratamento de bispo, apóstolo, reverendo, mais introjetam essa incoerência. E a disfuncionalidade psíquico-comportamental explode em compulsões e taras”.
Mocelin explica que a lógica da religião-espetáculo “não suporta o peso da vida real”, criando líderes que não podem mostrar fragilidade. “A performance diante do público se sobrepõe à vida real”, ele afirma.

Bezerra Jr., por sua vez, reforça o aspecto público da questão e alerta sobre nossa própria hipocrisia: “A segunda hipocrisia é nossa. Os que compartilham o vídeo rindo, se alimentando da vergonha dele para se sentirem mais santos ou mais puros. Não é. É só espelho, é só lição, é só alerta”. Para ele, casos assim nos lembram que “nós somos frágeis, que somos limitados, humanos. Ninguém está acima da graça”.
Divergências nas soluções
As diferenças surgem quando o assunto é a saída para a crise. Caio Fábio defende que líderes em situações semelhantes deveriam parar e buscar tratamento, até mesmo tirar um período sabático: “Não adianta impressionar o mundo inteiro com a alma esfacelada. É melhor se tratar do que virar uma quimera ambulante”.

Mocelin enfatiza a necessidade de comunidades que permitam vulnerabilidade, sem culto à imagem e sem espaço para hipocrisia. Já Bezerra Jr. ressalta que é preciso equilíbrio: reconhecer a incoerência, exigir responsabilidade, mas não recorrer ao linchamento público.
Muito além de um escândalo
O caso do “pastor de calcinha” não é apenas uma história de internet. Para os três pastores, ele expõe problemas estruturais da religião contemporânea: a busca por poder, a imagem perfeita e a falta de preparo emocional e espiritual.
Concluímos com a palavra de Bezerra Jr., que nos lembra que nossa reação não deve ser de cancelamento ou crueldade, mas de reflexão e misericórdia: “Ali tem gente. Um homem com dor, com família. Que precisa de restauração, não de linchamento público. Só a luz do Evangelho de Jesus sustenta quem encara a própria sombra e escolhe andar na verdade.”