O que faz do “ser humano” um humano autêntico? Uma resposta cristã aos anseios existenciais
O que faz do “ser humano” um humano autêntico?, por Lisarb Nascimento*
A autenticidade é a essência de qualquer coisa e, por consequência, o seu valor intrínseco. Qualquer réplica, por mais perfeita que seja, jamais terá o mesmo valor do seu original, simplesmente porque o original é autêntico e o restante é cópia com maior ou menor qualidade.
A antropologia, a filosofia, a sociologia, a psicologia e outras ciências humanas e biomédicas debruçam-se sobre esse assunto há séculos. Frequentemente, percebo que suas conclusões são quase sempre utilitaristas ou meramente etéreas. No entanto, as diversas religiões podem ter sido o caminho que mais trouxe paz aos corações humanos sob uma perspectiva existencial.
Responsabilidade, compromisso, dever e disciplina são elementos que costumam apresentar perspectivas de finalidade existencial. Contudo, mesmo quando a finalidade é atingida, o vazio parece persistir. É nesse ponto que o cristianismo se destaca entre as religiões. Ele não se compromete com uma finalidade finita. Antes que alguém se desespere, a proposta de finalidade cristã é infinita, mas infinitamente realizável sob uma perspectiva relacional, pois o Deus cristão não está distante de Sua criação nem das coisas por Ele criadas.
Mas o que isso tem a ver com a essência da humanidade? Tudo, se Deus nos der o entendimento de como somos constituídos. Evitando jargões teológicos, é importante saber que existem duas escolas doutrinárias sobre a constituição do ser humano: a dicotômica, que crê que o humano é composto de corpo e alma ou espírito; e a tricotômica, que crê na constituição de corpo, alma e espírito. Obviamente, o corpo constitui a parte física, e a alma e/ou espírito, a parte metafísica e/ou espiritual do ser humano.
Independentemente da linha doutrinária, o essencial é entender que o ser humano foi constituído de uma parte física e outra metafísica, seja ela única ou composta por duas partes. Para o que propomos, essa distinção não é o ponto principal agora.
A Criação e a Relação com o Criador
O ponto crucial é que Deus criou o ser humano para se relacionar com Ele e encontrar satisfação e alegria nessa relação (Gên. 1.26-27). Se Deus nos criou com essa finalidade, isso nos dá uma pista de que o homem, tal qual foi constituído, é o projeto inicial, a versão autêntica do que é ser humano.
Acadêmicos, intelectuais e catedráticos de outras ciências podem ter o ímpeto de refutar essa perspectiva conceitual. Contudo, preciso lembrar que esta é uma perspectiva teológica cristã, sob os crivos historiográficos de um dos documentos mais relevantes da história humana: a Bíblia Sagrada. Você pode não gostar desta perspectiva, mas, em 2025, pode ser embaraçoso desconsiderar as evidências científicas de que a Bíblia é um dos documentos históricos mais respeitáveis do planeta. Portanto, sigamos em frente.
A Queda e a Perda da Autenticidade
Mesmo os leitores mais atentos, sejam crentes ou não, podem se perguntar: “O projeto inicial não foi corrompido quando Adão comeu a maçã?”. Serei obrigado a concordar que parte da autenticidade humana se perdeu quando Adão e Eva se rebelaram contra Deus em um ato de desobediência (Gên. 3.1-7). Não entrarei no detalhe se foi por mera curiosidade ou deliberadamente por soberba, mas o fato é que a humanidade perdeu sua essência quando pecou contra Deus (Rom. 5.12).
Se você acompanhou o raciocínio atentamente, é possível que tenha desanimado ao compreender que a versão autêntica está manchada, e essa mancha passa de geração em geração por herança. Ou seja, somos uma “cópia” da versão original e autêntica. Mas há solução! Deus prometeu restaurar a humanidade original por meio de outro homem, filho da mulher e também Filho de Deus (Gên. 3.15).
A Restauração em Cristo
Ainda na ocasião da rebelião adâmica, Deus prometeu que nasceria um menino que esmagaria a cabeça da serpente, e esta lhe feriria o calcanhar. Deus encarnou na história através de Jesus (Jo. 1.14). Ele se fez homem, cumpriu Seu propósito de obedecer ao Pai em tudo, sem jamais pecar (Heb. 4.15). Morreu e ressuscitou no terceiro dia, dando vida eterna àqueles que O recebem como Salvador (João 3.16; Rom. 10.9-10).
Nesse ato de ressurreição, Jesus foi glorificado. Ele, que foi o humano perfeito, tal qual o projeto inicial, mas que viveu em um mundo imperfeito, foi tornado glorificado e, após alguns dias entre os homens, retornou ao Pai no céu (Atos 1.9-11), onde nos preparou um lugar para que, ao morrermos, estejamos junto a Deus Pai, Filho e Espírito Santo (João 14.1-3).
Buscando a Melhor Versão da Humanidade Autêntica
Ainda assim, a pergunta original permanece, porém com novos elementos: se a versão autêntica é aquela que nunca pecou, como Adão antes da queda, e Jesus em toda Sua vida, morte, ressurreição e ascensão, o que caracteriza o ser humano como autêntico?
A resposta é que, neste lado da eternidade, a autenticidade plena não é mais possível. Nunca seremos autênticos novamente no sentido original. Todavia, podemos buscar ser a melhor versão do ser humano autêntico, procurando viver o mais próximo possível da vida que Jesus viveu, obedecendo a Deus em todas as coisas e evitando o pecado (1 Ped. 2.21-22).
Se você, não cristão, dedicou seu tempo lendo até aqui e ficou inconformado com essa perspectiva, peço a Deus que lhe conceda a compreensão de quem Ele é e quem você é diante d’Ele. Numa perspectiva ideal, digo que, para se aproximar de um ser humano autêntico, é preciso seguir uma orientação dificílima que Jesus deixou ao ser perguntado qual era o resumo dos mandamentos: “Ame a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo” (Mat. 22.37-39). Você não será salvo pelas boas obras, mas, enquanto viver neste lado finito da eternidade, será alguém que mais terá se aproximado da humanidade autêntica do que certamente tem sido até este momento.
Para nós, crentes, a compreensão da autenticidade humana é permeada pela graça e pela esperança. Embora a mancha do pecado tenha afetado a humanidade, nos afastando do projeto original, a boa notícia é que em Cristo fomos feitos “nova criação” (2 Cor. 5.17). Não somos mais uma “cópia barata”, mas sim obras em andamento, sendo transformados à imagem daquele que nos criou (Rom. 8.29). Nossa jornada em busca da autenticidade não é uma tentativa desesperada de alcançar a perfeição por nossos próprios méritos, mas sim uma resposta de amor àquele que já nos aperfeiçoou em Jesus.
A vida cristã é um processo de santificação, onde o Espírito Santo nos capacita a viver de forma cada vez mais alinhada à vontade de Deus e aos ensinamentos de Cristo. Isso significa buscar a obediência, cultivar o amor (Gál. 5.22-23), e perseverar na fé, mesmo diante dos desafios e imperfeições.
E o porvir? A nossa esperança não se limita a viver “a melhor versão” de nós mesmos aqui na Terra. Ela se estende à gloriosa realidade de que, um dia, seremos plenamente restaurados e encontraremos a verdadeira e completa autenticidade na presença de Deus. A ressurreição de Jesus é a nossa garantia de que a morte não é o fim, e que teremos corpos glorificados, livres da corrupção e do pecado (1 Cor. 15.42-44).
Portanto, que nossa vida seja marcada por uma perseverança alegre, sabendo que Aquele que começou a boa obra em nós a aperfeiçoará até o Dia de Cristo Jesus (Fil. 1.6).
O vazio existencial que o mundo não consegue preencher é saciado pela nossa relação íntima com Deus e pela certeza de um futuro glorioso, onde estaremos para sempre com Ele, em uma autenticidade plena e sem mácula.
Sigamos firmes, com os olhos fixos em Jesus, o autor e consumador da nossa fé, vivendo cada dia a esperança da eternidade que Ele nos prometeu.