Pais na sociedade do cansaço: um chamado à verdadeira paternidade

Pais na sociedade do cansaço: um chamado à verdadeira paternidade

Pais na sociedade do cansaço: um chamado à verdadeira paternidade“E vós, pais, não provoqueis à ira vossos filhos, mas criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor” (Efésios 6.4)

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han afirma que vivemos numa “sociedade do desempenho”, onde o imperativo é “podes fazer tudo”, mas onde a liberdade virou um fardo e a exaustão uma pandemia silenciosa. Seu diagnóstico é claro: “A sociedade do desempenho é uma sociedade do cansaço. […] O sujeito do desempenho é mais rápido e mais produtivo, porém está exausto” (Sociedade do Cansaço, Vozes, 2015).

Neste Dia dos Pais, essa reflexão filosófica se torna profundamente pastoral. Afinal, o que significa ser pai num tempo em que tantos homens estão física e espiritualmente esgotados, correndo de um lado para o outro, buscando produtividade, aceitação, sucesso – e, muitas vezes, negligenciando a própria vocação paterna?

Chamado bíblico: ser pai é um ofício santo

Na Escritura, o papel do pai é mais do que biológico – é espiritual. Ser pai, segundo Deus, é ser educador, protetor, provedor e modelo de fé. É por isso que o apóstolo Paulo adverte aos pais: “Não provoqueis à ira vossos filhos” – ou seja, não os tratem com autoritarismo, negligência ou incoerência – “mas criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor” (Ef 6.4).

A palavra grega para “criar” (ἐκτρέφετε) carrega o sentido de alimentar, nutrir. E a disciplina e admoestação não são conforme os padrões do mundo, mas do Senhor.

Como lembra o reformador João Calvino:

“A autoridade paterna não deve ser tirania, mas um espelho da benignidade de Deus”
(Comentário sobre Efésios 6.4).

O perigo de pais ausentes, mesmo quando presentes

Pais na sociedade do cansaço não são necessariamente ausentes fisicamente. Muitos estão dentro de casa, mas emocional e espiritualmente desligados. Cansados demais para dialogar, orar, ouvir, corrigir com paciência. Exaustos demais para abrir a Bíblia com os filhos.

Pais cristãos na sociedade do cansaço
O filósofo Byung-Chul Han é autor do livro Sociedade do Cansaço

Byung-Chul Han observa que nossa época vive sob o peso da autoexploração: “o sujeito moderno é explorador e explorado ao mesmo tempo” (Sociedade do Cansaço, p. 25). Isso também atinge os pais cristãos: o desejo de dar uma vida melhor aos filhos, muitas vezes, os impede de oferecer o que mais importa – a presença e o ensino do Senhor.

John Piper adverte:

“Se você quer que seu filho veja Deus como glorioso, você precisa ser um pai que considera Deus mais glorioso do que seu trabalho” (Desiring God, 2003).

Reordenando as prioridades à luz do chamado de Deus

A Bíblia não nos chama a sermos superpais, mas pais fiéis. E fidelidade começa por reconhecer que não somos donos dos nossos filhos, mas mordomos da vida que Deus nos confiou. Nossa principal missão é conduzi-los ao Senhor.

Pais cristãos na sociedade do cansaçoComo escreve o teólogo reformado Joel Beeke:

“Pais piedosos não apenas ensinam sobre Cristo, mas vivem Cristo diante dos seus filhos. A paternidade bíblica começa com a piedade pessoal”
(ADORAÇÃO NO LAR, EDITORA FIEL, 2012).

Isso exige tempo, oração, renúncia e descanso verdadeiro. O descanso que Jesus oferece:
“Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.”
(Mateus 11.28)

Conclusão: pais que apontam para o Pai

O mundo precisa de pais que apontem para o Pai celestial. Homens que entendam que o seu trabalho mais importante não é o que fazem do lado de fora de casa, mas o que semeiam dentro dela. O lar é o seu primeiro púlpito. A mesa, o seu altar. E os filhos, sua congregação.

Neste Dia dos Pais, que cada pai cristão reflita sobre o seu chamado. Que renuncie ao falso evangelho da performance e abrace a simplicidade do discipulado no lar. Que priorize a Palavra, a oração e a comunhão com seus filhos. E que encontre descanso não no sucesso humano, mas na suficiência de Cristo.

Feliz Dia dos Pais — sob a cruz de Cristo, sob a graça de Jesus.