Por que Jesus se importaria com o déficit habitacional?

Por que Jesus se importaria com o déficit habitacional?

Por que Jesus se importaria com o déficit habitacional?O Dia Nacional da Habitação, celebrado em 21 de agosto, é uma data que chama atenção para um dos maiores desafios sociais do Brasil: o déficit habitacional. Segundo a Fundação João Pinheiro, o país tem hoje cerca de 5,9 milhões de moradias em falta — o que significa milhões de famílias vivendo em condições precárias, pagando aluguéis que consomem a maior parte da renda, dividindo casas com outros núcleos familiares ou habitando em domicílios improvisados.

A questão, porém, não é apenas social e econômica. À luz da fé cristã, ela toca também o campo espiritual e ético. Afinal, o Jesus Cristo apresentado na Bíblia se importaria com o déficit habitacional?

O Cristo sem teto e o valor da hospitalidade

No evangelho de Mateus, Jesus declara: “As raposas têm covis, e as aves do céu ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8.20). O próprio experimentou a falta de uma moradia fixa durante o seu ministério público. Por assim dizer, era um sem-teto. Ele e Seus discípulos ficavam nas casas daqueles que os acolhiam (Lc 10:6-8), pois teriam que andar por toda a terra de Israel fazendo sua obra e anunciando o Reino de Deus.

Será que, se o próprio Rei do Universo escolheu viver desta forma, ele não quer nos ensinar algo valioso? Será que, ao olharmos para os vulneráveis, especialmente aqueles que enfrentam a insegurança da falta de teto, não deveríamos enxergar a pessoa do próprio Cristo?

No Novo Testamento, especificamente em seu Sermão Escatológico, Jesus inclui a hospitalidade como obra de justiça e misericórdia daqueles que foram seus servos, inclusive, se identificando com os desabrigados: “Era forasteiro, e me hospedastes” (Mt 25.35).

Déficit habitacional: Jesus Cristo e a importância da hospitalidade
Cena do seriado The Chosen retrata Jesus sem moradia fixa

Mas ao longo das Escrituras, a habitação aparece como um tema recorrente. Isaías 58.7 convoca o povo de Deus a “recolher em casa os pobres desabrigados” como ato que demonstra a justiça revelada na Lei de Deus.

A Bíblia, portanto, trata o abrigo como expressão concreta da justiça e da misericórdia de Deus.

Um olhar reformado sobre a moradia

A tradição reformada também reforça essa dimensão. João Calvino, ao comentar Isaías 58, afirmou que Deus rejeita práticas religiosas vazias quando os pobres são negligenciados. Para ele, atos de justiça e misericórdia — como oferecer abrigo — são parte essencial da verdadeira fé.

Séculos depois, o estadista e teólogo holandês Abraham Kuyper destacou que a graça comum de Deus se manifesta em toda a sociedade e deve orientar políticas públicas que garantam dignidade, incluindo o direito à habitação. Segundo o teólogo, isso é expressão da justiça que reflete o caráter de Deus no mundo.

Já o pastor e teólogo norte-americano Tim Keller lembrou que a justiça bíblica (mishpat) não se limita a evitar a opressão, mas exige suprir ativamente as necessidades dos vulneráveis. Keller aplica isso a questões como moradia, alimentação e saúde.

Déficit habitacionaa: Abraham Kuyper
Teólogo e estadista holandês Abraham Kuyper defendeu que a graça de Deus deve orientar políticas públicas que garantam dignidade às pessoas

Como essa reflexão se aplica hoje

Se transportarmos esse ensinamento bíblico para os dias atuais, é possível afirmar que Jesus se importaria, sim, com o déficit habitacional brasileiro. É claro que sua obra prioritária é que as pessoas creiam nEle para a vida eterna (Jo 3.16). Mas, se importar com os necessitados, é algo que reflete o amor, a misericórdia e a justiça no Evangelho de Jesus.

Portanto, creio que discípulos de Jesus precisam se importar, buscar acolhimento e lutar por habitação digna para os que não têm onde morar ou vivem em condições indignas. Creio que a ética cristã nos leva, também, a denunciar sistemas que perpetuam a exclusão social. Creio que, enquanto Igreja de Cristo, somos chamados a exercer hospitalidade e solidariedade àqueles que não têm condições dignas.

E, em todas essas atitudes, nos lembrarmos, e lembrarmos às pessoas que são alvos desses atos de justiça e misericórdia, de que a nossa esperança maior é que Jesus prometeu a moradia mais digna, um lar eterno na Nova Jerusalém, a todo aquele que nEle crer e a Ele receber como Salvador e Senhor de sua vida. Nesse lar não haverá mais dor, mais sofrimento, mais choro, mais morte, porque todas essas coisas já terão passado e Deus habitará conosco eternamente (Apocalipse 21).

Fé, justiça e habitação digna

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Programas de Governo podem valorizar moradia digna a famílias vulneráveis

O déficit habitacional no Brasil não pode ser tratado apenas como estatística. É um drama humano que expõe desigualdades e desafia valores de justiça, dignidade e cuidado.

A fé cristã reformada, quando lida de forma integral, mostra que moradia digna é parte da preocupação de Deus com o bem-estar humano. Ignorar o problema é reduzir a fé a uma prática individualista, desvinculada da realidade. Reconhecê-lo, por outro lado, é dar um testemunho coerente com a mensagem de Jesus, que uniu palavra e compaixão concreta.

No Dia Nacional da Habitação, essa reflexão ganha ainda mais relevância. Se Cristo se importaria com os sem-teto e os mal-habitados, o desafio que se coloca é simples e, ao mesmo tempo, profundo: como nós, enquanto sociedade, também podemos nos importar?

*Gustavo Gouvêa é jornalista, mestre em Ciências Sociais, teólogo e membro da Primeira Igreja Batista de Vitória (PIB Vitória)