Rodolfo Abrantes e o Clube dos 27: quando morrer é nascer de novo
A inspiração deste texto nasce de uma fala do músico Rodolfo Abrantes, ex-vocalista dos Raimundos, em uma entrevista recente ao Ticaraticast Podcast. Ao ser lembrado sobre o famoso “Clube dos 27” — grupo que reúne artistas como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Cobain e Amy Winehouse, todos mortos aos 27 anos —, Rodolfo respondeu com serenidade e espanto:
“O louco é isso, né, cara? A Bíblia diz que, quando você entrega a sua vida pra Jesus, você morre pro velho homem e nasce de novo. Então eu também morri com 27 anos”.
A coincidência é simbólica. Enquanto tantos sucumbiram aos excessos, Rodolfo morreu de outro modo: morreu para si mesmo. No mesmo ano em que a vida poderia ter sido engolida pelo abismo da fama, ele foi engolido pela graça de Deus.
O fascínio sombrio do número 27
Desde a morte de Hendrix em 1970, o número 27 se tornou um mito sombrio da cultura pop. Joplin, Morrison, Cobain e Amy seguiram o mesmo roteiro trágico: juventude, genialidade, vício e fim precoce. A coincidência de idades alimentou a lenda, mas a ciência desmontou o mito.
Um estudo publicado no British Medical Journal (BMJ, 2011) analisou a mortalidade de músicos famosos e concluiu que não há risco maior aos 27 do que em outras idades; o que existe é um índice muito elevado de mortes entre os 20 e 30 anos, período marcado por instabilidade emocional, exposição extrema e consumo abusivo de substâncias.
Pesquisas em psicologia do desenvolvimento, como as do sociólogo Jeffrey Arnett, definem essa fase como “emerging adulthood” — a idade da experimentação, da construção de identidade e da vulnerabilidade. É um tempo de intensos contrastes: a potência dos desejos e a fragilidade dos limites.
No caso dos artistas, o cenário é agravado por fama precoce, isolamento, ausência de vínculos sólidos e fácil acesso a drogas. Um motor potente sem freio.

A liberdade de se dominar
“Às vezes, você só investe em motor no carro, esse carro explode. Você tem que investir em freio”
Essa foi uma outra afirmação de Rodolfo no podcast, uma parábola moderna da alma humana. O motor é o talento, a emoção, a busca por intensidade; o freio é o domínio próprio — fruto do Espírito. E aqui a Escritura se faz clara:
“Como cidade derrubada, que não tem muros, assim é o homem que não tem domínio próprio” (Provérbios 25:28)
“O fruto do Espírito é… domínio próprio” (Gálatas 5:22-23)
A graça de Deus, ensina o apóstolo Paulo, “nos educa a renunciar às paixões mundanas e a viver de modo sensato, justo e piedoso” (Tito 2:12). Neste sentido, o Evangelho aperfeiçoa o motor e instala novos freios.
O teólogo puritano John Owen dizia: “Ou matamos o pecado, ou o pecado nos mata”.
E Sinclair Ferguson explica: “A graça não é apenas o perdão que cobre o pecado, mas o poder que o controla”.
O que a cultura muitas vezes chama de repressão, a Bíblia chama de redenção.
A morte que gera vida
“O louco é isso, né, cara? A Bíblia diz que, quando você entrega a sua vida pra Jesus, você morre pro velho homem e nasce de novo. Então eu também morri com 27 anos”
Rodolfo não cita um versículo, mas cita uma doutrina inteira: a da regeneração, um dos pilares da fé reformada.
A Escritura confirma:
“Sabendo isto: que o nosso velho homem foi crucificado com Cristo, para que o corpo do pecado seja destruído” (Romanos 6:6)
“Se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas velhas já passaram” (2 Coríntios 5:17)
João Calvino, nas Institutas, escreveu: “A conversão é a verdadeira morte de nós mesmos e o início da vida em Deus”. John Stott, em A Cruz de Cristo, acrescenta: “A cruz não é apenas o lugar onde Cristo morreu por nós, mas onde nós morremos com Ele.”
O que os ídolos do “Clube dos 27” perderam em desespero, Rodolfo encontrou na crucificação espiritual. Enquanto eles buscavam eternidade na intensidade, ele a encontrou na entrega. Rodolfo morreu, mas para o velho homem.
O outro “Clube dos 27”
Há um “clube dos 27” que não aparece nas manchetes, mas que está vivo: o dos que morrem para si e vivem para Cristo. A idade é apenas coincidência, mas o princípio é eterno. Cada conversão é uma morte para o “eu” escravo do pecado, como escreveu o apóstolo Paulo:
“Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20)
R. C. Sproul lembra que “o novo nascimento não é uma segunda chance, é uma nova criação”. E é disso que trata a fé: morrer para o que éramos, nascer para o que fomos chamados a ser.
Enquanto o mundo lamenta o talento perdido, o cristão celebra a vida achada. No “clube” de Rodolfo, não há overdose, há vida verdadeira e abundante. Não há fim trágico, há um recomeço eterno. E, para quem acompanha Rodolfo em sua carreira artística sabe: seu talento está mais aprimorado do que nunca.

Entre o mito e o milagre
O “clube dos 27” é o retrato da fragilidade humana em sua busca insaciável por sentido.
Mas a fala de Rodolfo Abrantes redime o símbolo: aos 27, ele também morreu — não por uma vida desenfreada, mas por abundância da graça de Deus, que o fez verdadeiramente vivo em Cristo (Efésios 2:5).
Entre o mito e o milagre, o evangelho reescreve o número. Porque há uma morte que salva, e um nascer que é, de fato, viver.
Se você chegou até aqui e sente que também tem vivido em alta rotação, com o motor rugindo e o freio falhando, ouça o chamado de Jesus Cristo.
“Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mateus 11:28)
Morrer aos 27 — ou aos 37, 47, 57… — pode ser o melhor acontecimento da vida, se for o velho eu quem morre e Cristo quem nasce em nós. Porque, como ensina Calvino, “a verdadeira vida é morrer para nós mesmos e viver para Deus”.
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