Servir ou governar: qual é o verdadeiro propósito da igreja?
Frequentemente a igreja contemporânea e seus crentes envolvem-se em escândalos que os fazem cair em descrédito na opinião pública. Também tem sido comum vermos lideranças cristãs que deveriam estar ocupadas em ministrar a Palavra e cuidar de pessoas envolvendo-se em disputas políticas e por poder. Coisas que estão distantes da natureza que Jesus Cristo idealizou para seus seguidores.
Veja o que ele ensinou sobre os escândalos:
“E, se alguém fizer tropeçar um destes pequeninos que creem em mim, seria melhor para esse que uma grande pedra de moinho fosse pendurada ao seu pescoço e fosse afogado na profundeza do mar” (Mateus 18.6).
Jesus também ensinou que a marca distintiva de seus seguidores seria a renúncia e o serviço, assim como ele mesmo fez:
“Mas entre vocês não será assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vocês, que se coloque a serviço dos outros; e quem quiser ser o primeiro entre vocês, que seja servo de vocês; tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.” (Mateus 20.26-28)
Porém, infelizmente, o que vemos tomar as manchetes dos jornais são notícias sobre cristãos e igrejas que fariam o seu verdadeiro dono dizer: “apartai-vos de mim, pois não vos conheço!” (Mateus 7.23).
Natureza e missão da igreja
O que quero dizer, é que a igreja contemporânea e seus crentes têm se desviado de sua real natureza e missão histórica no mundo, que é servir, amar e testemunhar o reino de justiça e misericórdia de Deus na terra.
Jesus diz para seus discípulos buscarem em primeiro lugar o “reino e a justiça de Deus”. Para entender o que isso significa precisamos buscar compreender melhor o sentido destas duas palavras.
O Reino de Deus
O Reino de Deus é a esfera, o conjunto de todos salvos que alegremente se submeteram a Deus, crendo e obedecendo sua Palavra. Tais pessoas, de uma vez para sempre têm crido e aceito o Messias como Salvador único e completo, e como único e total Senhor e Deus.
O reinar de Deus não tem aparência exterior, e está no meio de nós (Lc 17:20,Lc 17:21). Isso precisa ficar claro para nós: O REINO DE DEUS NÃO É DESTE MUNDO, não é um reino político. A igreja não tem que governar os países ou os estados! O reino de Cristo são pessoas que se submetem ao governo de Cristo.
A Justiça do Reino
A Justiça do Reino é o caráter do súdito de Jesus. Ela é um estado aprovado por Deus de integridade; virtude; pureza de vida; justiça; pensamento, sentimento e ação corretos. Logo, o discípulo de Jesus possui uma conduta diferenciada no mundo e isso impacta diretamente em sua postura diante das diversas circunstâncias da vida.
Outra possível tradução para “justiça” é virtude que dá a cada um o que lhe é devido. Nesta perspectiva, a igreja precisa lidar com as injustiças e os injustiçados do mundo provendo o que lhes falta. Ao vulnerável prover cuidados e ao injusto, condenar e denunciar suas ações.

“No hebraico justiça é Mishpat: dar às pessoas o que é devido, seja punição, seja proteção ou cuidado […] Repetidas vezes, Mishpat descreve cuidar da causa dos órfãos, das viúvas, dos estrangeiros e dos pobres, ‘o quarteto da vulnerabilidade’” (Tim Keller)
“Assim diz o Senhor: Sejam imparciais e justos. Ajudem os que são explorados e livrem-nos de seus opressores. Abandonem suas maldades: não maltratem os estrangeiros, nem os órfãos, nem as viúvas e parem de matar inocentes!” (Jeremias 22:3)
Os vulneráveis de hoje
No contexto bíblico, o chamado para exercitar a justiça e misericórdia eram para os mais vulneráveis: órfãos, viúvas, estrangeiros e os pobres. Mas e se fôssemos atualizar esta lista de vulneráveis, quais seriam estes grupos em nossa época?

Creio que se pararmos brevemente para pensar nesta lista podemos lembrar das pessoas com deficiência física ou intelectual, juntamente com suas famílias que enfrentam desafios todos os dias para conseguirem ter acesso ao básico.
Também podemos colocar nesta lista os refugiados, pois de acordo com a ONU até meados de 2024, 120 milhões de pessoas foram forçados a deixar suas casas e países por causa das guerras.
Outros grupos que a igreja e os seguidores de Jesus podem se dedicar a cuidar são as vítimas de violência sexual, mulheres vítimas violência doméstica, crianças e jovens negros privados de oportunidades e expostos à violência nas periferias.
A lista é muito grande e ainda existem muitos outros grupos de vulneráveis que os seguidores de Jesus precisam voltar os seus olhos ao invés de perderem tempo com brigas políticas e escândalos que só trazem prejuízo para si e para a sociedade.