Um caminho para o perdão: a lição de Mandela e Tutu
Um caminho para o perdão, por Gustavo Siqueira*
A África do Sul foi assolada pela tragédia do apatheid, prática que institucionalizava no país o racismo, a desigualdade e a opressão a pessoas da terra que sofriam toda sorte de violências e privações pelos povos europeus que invadiram aquele país no século 19.
O apatheid deixou um legado sangrento de muitas mortes, injustiças, mágoas e ressentimentos. Porém, no fim do século 20 o segmento que outrora fora alvo das violências, ganhou as eleições com o ex-preso político Nelson Mandela.
Inesperadamente, ao invés de retribuir todas as agressões e pagar toda a injustiça que sofreu, Mandela implementa uma Comissão da Verdade e Reconciliação. Para liderar esta comissão foi nomeado o pastor Desmond Tutu, da igreja Anglicana. Tutu escreve em seu poderoso e sugestivo “O livro do perdão” um interessante caminho para corações ressentidos e feridos alcançarem paz:
1. Contar a história
Contar nossas histórias nos ajuda a recuperar nossa dignidade, recuperar o que nos foi tirado. Contá-la ajuda a conhecê-la de fato e nos integrar na história maior de nossas vidas, remontar as peças do quebra-cabeça e compreender o que de fato nos aconteceu e integrar as lembranças. Ao contar nos tornamos mais resilientes e capazes de lidar com os traumas.

Conte a história. Fale a verdade, comece pelos fatos, conte a história primeiro a um amigo, ente amado ou pessoa de confiança. Considere a possibilidade de contar a história para a própria pessoa que o prejudicou (se for seguro), ou de escrever uma carta. Aceite o fato de que o que aconteceu não pode ser mudado ou desfeito.
2. Dar vazão à dor
Mágoas sempre encontram um caminho de expressão. Se reprimidas ferirão a si ou a outros. Precisamos identificar os sentimentos, aceitá-los e validá-los. Quando damos vazão à nossa mágoa, ela perde o poder que tem sobre nossas vidas e identidades. Deixa de ser o personagem central de nossas histórias.
Para conseguirmos dar vazão à dor precisamos aprender a identificar os sentimentos associados aos fatos. Procure alguém que te respeite e acolha seus sentimentos sem tentar amenizá-los. E, por fim, aceitar sua própria vulnerabilidade.
3. Conceder o Perdão
Perdoar é quebrar o ciclo infinito de contar a história e dar vazão à mágoa que nos prende. Quando o fazemos passamos do papel de vítima ao de herói da história. Uma vítima não tem nada a dar e nenhuma escolha a fazer. Um herói tem a força e a capacidade de ser generoso e compassivo, e o poder e a liberdade provêm da capacidade de optar por conceder perdão.
O ato de perdoar nos ajuda a criar uma nova história. O perdão permite que nos tornemos autores de nosso futuro, desacorrentando-o do passado. Sabemos que estamos superando quando somos capazes de contar uma nova história.
4. Renovar ou abrir mão do relacionamento
Depois que você consegue perdoar, o passo final é renovar o relacionamento ou abrir mão dele.

A decisão bem refletida de abrir mão de um relacionamento é uma escolha válida. Porém, a renovação e a reconciliação são sempre preferíveis, com exceção em que sua segurança esteja em jogo. Quando optamos por abrir mão de um relacionamento, aquela pessoa vai embora com um pedaço de nosso coração e história. Não é uma escolha para ser feita num impulso, ou calor do momento.
Renovar nossos relacionamentos é o modo de colhermos os frutos que o perdão plantou. A renovação não é um ato de reconstituição do relacionamento; nós criamos um novo corrigindo as falhas do antigo.
Conclusão
A escolha da África do Sul pelo perdão ao invés da vingança foi, na verdade, a única alternativa, pois se tivessem escolhido o ressentimento e a retaliação o destino seria somente um: o ciclo interminável de destruição.
Que neste fim de ano você também possa escolher este caminho, mesmo que ele não seja o mais fácil. E que ao, trilhá-lo, você possa experimentar um crescimento, mesmo que doloroso, porém profundamente belo.
*Retirado e adaptado de “O livro do perdão: para curarmos a nós mesmos e o nosso mundo” de autoria de Desmond Tutu e Mpho A. Tutu.
*Gustavo Siqueira é pastor, teólogo e professor de História
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