Campinas supera 41 mil atendimentos contra abuso de álcool e drogas em 5 meses: 'Decidi que não queria morrer'

Campinas realiza 41,2 mil atendimentos de adictos em álcool e drogas em 2026 “Eu senti um vazio tão grande... eu falava: o que eu estou fazendo aqui ainda?”. O relato é de um homem de 52 anos, que começou a beber aos 12 e passou mais de três décadas entre o álcool e outras drogas. O homem, que preferiu não ser identificado, descreveu a sensação de estar “morto em vida” até o dia em que decidiu pedir ajuda e tentar mudar. Após internação e o contato com grupos de apoio, iniciou um processo de recuperação. A trajetória, segundo ele, foi marcada por perdas acumuladas ao longo do tempo: deixou estudos, perdeu bens materiais, o convívio com a família e a própria saúde. “Eu perdi muita coisa. O meu tempo eu não recupero”, disse. A virada veio quando percebeu que ainda queria viver e buscou tratamento. "Eu percebi que eu não queria morrer. Na época tinha dias que eu falava assim, cara, eu não quero mais estar aqui. E eu descobri que eu queria viver", relatou. 📲 Participe do canal do g1 Campinas no Whatsapp "Percebi que não queria morrer", disse morador de Campinas (SP) sobre o momento em que decidiu abandonar o uso abusivo e prejudicial de drogas. Reprodução/EPTV Histórias como a dele fazem parte de uma rede de pessoas que buscam abandonar o uso abusivo e prejudicial de drogas em Campinas (SP). Segundo a Secretaria de Saúde, em 2025 foram realizados 97.768 atendimentos a pacientes nos quatro Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD) da cidade. No recorte de janeiro a maio, houve leve queda no número de atendimentos: 2026: 41.265 2025: 41.726 ‘Eu comecei a me amar de novo’ Após anos de uso, o entrevistado relatou o momento em que decidiu lutar contra o vício em álcool e outras drogas. "Tem um horário que é muito ruim, 6h da manhã, a hora que o ônibus começa a passar, o passarinho começa a piar, e eu falo, 'o que eu estou fazendo aqui ainda?'. Isso era horrível, cara. Aquele dia, nem essa dor eu estava sentindo. Foi um negócio muito estranho. Você é tipo zumbi, cara, você não sente mais nada", relembrou. Depois desse dia, ele procurou ajuda, passou por internação Ele contou que a recuperação não se resume a parar de usar substâncias. É um processo contínuo, que exige disciplina e apoio de outras pessoas. “Sem o álcool foi muito difícil no começo. Mas hoje eu me amo. Eu começo a aprender a viver de uma maneira diferente”, disse. Ele afirmou que, mesmo após mais de uma década de abstinência, ainda precisa de suporte para tomar decisões no dia a dia: “Eu tenho uma visão distorcida de mim mesmo e do mundo. Então eu preciso de orientação.” A rotina também mudou completamente. Hoje, mantém uma vida com horários, cuidados e estabilidade. “A melhor coisa que me aconteceu foi não ter mais ressaca. Parece simples, mas é uma gratidão enorme”, disse. Para ele, a recuperação também tem impacto coletivo. “Cada pessoa que para de usar é um consumidor a menos”, afirmou. Como as drogas agem e como buscar ajuda Imagem ilustra uso abusivo e prejudicial de drogas. Reprodução/EPTV A psiquiatra e professora da Unicamp Karina Diniz explicou que drogas são substâncias que alteram o funcionamento do corpo ou da mente e podem ser divididas em três grupos principais: depressores, estimulantes e perturbadores. Segundo a especialista, essas substâncias aumentam a dopamina em áreas primitivas do cérebro, ligadas a necessidades básicas. Com o uso contínuo, o organismo passa a enxergar a droga como essencial para sobreviver. “Para o cérebro, a falta da droga funciona como a falta de água ou de comida”, afirmou. Com o avanço da dependência, o comportamento da pessoa muda para priorizar o uso. Isso pode levar à perda de vínculos familiares, problemas no trabalho e maior exposição a riscos, como acidentes e violência. Além disso, o uso prolongado pode trazer consequências físicas graves. Entre elas estão danos cerebrais associados ao álcool e riscos cardiovasculares no caso da cocaína, como infarto e AVC, segundo a professora. Diniz destacou que o álcool, apesar de socialmente aceito, também é uma droga e pode ser porta de entrada para a dependência em pessoas mais vulneráveis. Em Campinas, a rede pública oferece tratamento nos Caps AD, e a orientação é observar o papel que a substância ocupa na rotina. “Se o uso começa a ganhar importância maior na vida, é o momento de procurar ajuda”, afirmou. Ela ressaltou que a prevenção e a informação são fundamentais: “É mais fácil prevenir do que tratar depois.” Taça, copo, cerveja, álcool, bebida alcoólica. Reprodução/EPTV VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas