Canabinoide sintético nunca descrito no mundo é identificado por pesquisadores da Unicamp no Brasil
Canabinoide sintético foi identificado em amostras apreendidas pela polícia em Jundiaí (SP) GETTY IMAGES via BBC Pesquisadores da Unicamp identificaram um canabinoide sintético inédito no mundo. A substância foi encontrada em materiais apreendidos pela polícia em Jundiaí (SP) e teve a estrutura descrita em um artigo publicado na revista científica Drug Testing and Analysis, em 16 de dezembro de 2025. A descoberta ocorreu em 2024 e, segundo os pesquisadores, chama a atenção por inverter o fluxo habitual dessas drogas. Em geral, novas substâncias psicoativas surgem no exterior e só depois chegam ao Brasil. Neste caso, a identificação aconteceu primeiro em território brasileiro. “É um canabinoide que nunca tinha sido identificado em nenhuma outra parte do mundo. Então, é a primeira vez que essa substância é identificada no mundo”, explica José Luiz da Costa, coordenador do Centro de Informação e Assistência Toxicológica de Campinas (CIATox). O que são canabinoides sintéticos? Os canabinoides sintéticos fazem parte do grupo de drogas desenvolvidas para burlar a legislação ao imitar os efeitos de substâncias já conhecidas, como cocaína, LSD, ecstasy e maconha. Costa explica que essas substâncias atuam no sistema endocanabinoide do cérebro, o mesmo afetado pelo THC, principal composto psicoativo da maconha. ⚠️ A diferença é a potência: os canabinoides sintéticos costumam ser muito mais fortes, com efeitos que incluem convulsões, taquicardia, psicose aguda, depressão respiratória e risco de morte. “No começo eles foram feitos para agir como se fosse o THC que está presente na maconha, só que eles são muito mais potentes do que o THC. Então, o efeito acaba nem sendo tão parecido com a maconha”, detalha o pesquisador. Toxicologista alerta sobre riscos do uso de canabinóide sintético que vem se espalhando 'Corrida química' Ainda segundo o pesquisador, existe hoje uma “corrida química” entre laboratórios clandestinos e órgãos reguladores. Isso porque, no Brasil, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proíbe uma substância, ela deixa de ser vendida legalmente. Em resposta, o mercado ilegal costuma fazer pequenas alterações químicas que dão origem a novas drogas ainda não proibidas. “Cada vez que uma substância é proibida, ela deixa de ser comercializada. Praticamente deixa de vender aquela substância, porque passa a ser crime. Então, ele começa a vender uma nova, sintetizar uma nova”, diz Costa. Um ponto que chamou a atenção dos autores do artigo foi a presença de bromo na estrutura química do novo canabinoide, o MDMB-5’Br-PINACA. Esse tipo de modificação pode fazer com que a droga fique mais tempo no organismo, embora isso ainda precise ser confirmado por estudos específicos. Risco à saúde pública No CIATox, os canabinoides sintéticos já são a classe mais associada a intoxicações entre as novas substâncias psicoativas. Apesar de as drogas clássicas ainda liderarem os atendimentos, esse tipo de droga sintética preocupa pela dificuldade de diagnóstico. “Precisamos, inclusive, fazer análise e saber que essas substâncias existem, porque quando alguém utilizar esse tipo de droga, precisamos saber que essas drogas existem no mercado para que possamos detectar casos de intoxicação”, destaca Costa. O problema é que essas substâncias surgem e desaparecem rapidamente, o que dificulta estudos mais aprofundados. Muitas vezes, quando a droga começa a ser analisada, ela já foi substituída por outra versão. “Essa é uma característica desse grupo de drogas. Você não consegue falar, porque a droga aparece e desaparece do mercado muito rápido”, diz Costa. VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas