Dia de Reis: qual é a importância dos “reis magos”
Celebrado no dia 6 de janeiro pela tradição católica, o Dia de Reis relembra a visita dos chamados “três reis magos” ao menino Jesus, conforme a narrativa do Evangelho de Mateus. A data atravessou séculos, ganhou expressões culturais, símbolos e nomes próprios, tornando-se parte do imaginário cristão popular no Brasil e em diversas partes do mundo.
Mas, à luz das Escrituras Sagradas, é necessário ir além da tradição e retornar ao texto bíblico. Quem eram, de fato, esses visitantes do Oriente? Eram reis? Eram três? O que os motivou a percorrer longas distâncias até Belém? E, sobretudo, por que essa visita, registrada logo nos primeiros capítulos do Evangelho, ocupa um lugar tão importante na história da redenção?
Na coluna Fé Pública, que propõe refletir sobre o cotidiano à luz do Evangelho, o episódio dos magos é uma oportunidade preciosa para compreender como Deus revela seu Filho não apenas a Israel, mas também às nações. Mais do que uma cena natalina, essa visita anuncia quem é Jesus, a quem Ele veio buscar e qual deve ser a resposta humana diante da revelação do verdadeiro Rei.
Quem eram, afinal, os chamados “reis magos”?
A narrativa bíblica sobre a visita dos magos está registrada em Mateus 2.1–12. E já no primeiro versículo surge a primeira correção necessária: a Bíblia não os chama de reis. Mateus afirma apenas que “magos vieram do Oriente” (Mt 2.1).
O termo grego mágoi não se refere a mágicos ou feiticeiros no sentido popular, mas a sábios, estudiosos, especialmente ligados à astronomia e à observação dos céus. Eram homens instruídos, provavelmente pertencentes a uma elite intelectual do Oriente, possivelmente da Pérsia ou da Babilônia, regiões onde havia tradição de estudo astronômico e também contato histórico com o povo judeu desde o exílio.
A associação deles com “reis” surge séculos depois, influenciada por leituras simbólicas de textos como Salmo 72.10–11 e Isaías 60, mas não é uma afirmação direta do texto bíblico. A fé reformada insiste aqui em um princípio fundamental: a Escritura interpreta a própria Escritura. Onde a Bíblia não afirma, não devemos dogmatizar.

Eram três? Tinham nomes?
Outro ponto importante: a Bíblia não diz que eram três magos. A ideia de três surge apenas pela menção de três presentes — ouro, incenso e mirra. Poderiam ser dois, três ou muitos. O texto não especifica.
Da mesma forma, os nomes tradicionalmente atribuídos — Melquior, Gaspar e Baltasar — não têm qualquer base bíblica. São construções tardias da tradição cristã medieval, úteis para a catequese visual e simbólica, mas não normativas para a fé.
Aqui, a teologia reformada nos convida a separar com clareza tradição cultural de revelação bíblica.
De onde eles vieram — e por que isso importa?
Mateus afirma que eles vieram do Oriente. Isso não é um detalhe irrelevante. Os magos eram gentios, não judeus. Não pertenciam ao povo da aliança, não tinham o templo, nem a Lei mosaica. Ainda assim, foram conduzidos até Cristo.
Esse detalhe revela algo central para a história da redenção: Jesus não nasce apenas para Israel, mas para o mundo. Já nos primeiros capítulos do Evangelho, Mateus antecipa o que se tornará explícito depois: o Messias prometido a Israel é também o Salvador dos gentios.
Como bem enfatiza João Calvino em seu comentário sobre Mateus, a presença dos magos é um sinal de que Cristo começa a reunir, desde o berço, um povo que ultrapassa fronteiras étnicas e religiosas.
O que motivou a viagem desses magos?
Os magos afirmam: “Vimos a sua estrela no Oriente e viemos para adorá-lo” (Mt 2.2).
Aqui há um ponto teologicamente riquíssimo. Eles não vieram por curiosidade, nem por política, nem por interesse pessoal. Vieram para adorar.
A estrela não deve ser entendida como simples fenômeno astrológico comum. Mateus descreve algo extraordinário, um sinal soberanamente usado por Deus para conduzir esses gentios até Cristo. Isso não legitima astrologia, mas demonstra que Deus, em sua soberania, pode usar meios extraordinários para cumprir seus propósitos redentores.
Enquanto Herodes, o rei de Jerusalém, se perturba e reage com violência, e enquanto os líderes religiosos sabem onde o Messias deveria nascer, mas não se movem, os gentios percorrem longas distâncias para se prostrar diante do verdadeiro Rei.

O contexto da época: um contraste revelador
O nascimento de Jesus ocorre em um ambiente de tensão política, opressão romana e corrupção espiritual. Herodes representa o poder que teme perder o controle. Jerusalém simboliza uma religião que conhece as Escrituras, mas não se deixa mover por elas.
Os magos, por outro lado, agem à luz da revelação que receberam. Quando encontram Jesus, não discursam, não questionam, não negociam. Eles se prostram.
Mateus escreve: “Prostrando-se, o adoraram” (Mt 2.11).
Essa é a resposta correta diante de Cristo.
O significado da visita para a história da redenção

A visita dos magos aponta para uma verdade central do Evangelho: o Rei prometido veio para ser adorado por todas as nações.
Os presentes oferecidos carregam simbolismo teológico: Ouro é sinal de realeza; Incenso é associado à adoração; Mirra é usada em embalsamamento, apontando para o sofrimento e a morte.
Sem saber plenamente, aqueles homens anunciam, com seus gestos, que aquele menino é Rei, Deus digno de adoração e Servo sofredor.
O que esse episódio ensina à nossa fé hoje?
À luz da fé reformada, a visita dos magos nos deixa aplicações profundas e atuais:
- Cristo continua se revelando aos que o buscam sinceramente, ainda que estejam longe, cultural ou religiosamente.
- Conhecimento religioso não garante fé verdadeira — os escribas sabiam as profecias, mas não foram a Belém.
- A resposta correta à revelação de Cristo é adoração e obediência, não indiferença nem medo.
- Jesus confronta todos os poderes humanos, ontem e hoje. Herodes ainda vive em todo coração que resiste à soberania de Cristo.
Nossa resposta
Celebrar o Dia de Reis, sob a ótica da fé reformada, não é repetir tradições sem reflexão, mas retornar às Escrituras e perguntar: o que Deus está nos ensinando aqui?
A visita dos magos nos lembra que o Evangelho não pertence a um grupo, uma cultura ou uma tradição específica. Cristo é o centro da história, da fé e da redenção. E diante dele, como aqueles sábios do Oriente, só há uma resposta coerente: prostrar-se e adorá-lo.