Como cientistas ‘caçam’ vírus pelo mundo para antecipar pandemias

Imagem ilustrativa de vírus. Universal Images Group/Getty Images No coração da Amazônia, cientistas tentam responder a uma pergunta urgente: é possível identificar uma ameaça viral antes que ela provoque uma epidemia? 📱 Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp A aposta da ciência está na metagenômica, técnica que permite sequenciar todo o material genético presente em uma amostra ambiental ou animal. Com ela, pesquisadores conseguem rastrear vírus já conhecidos e até identificar microrganismos ainda desconhecidos pela ciência. A pesquisa é conduzida por cientistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) ao longo da BR-319, rodovia que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO) e atravessa extensas áreas de floresta preservada. Segundo José Luiz Proença Modena, professor associado da Unicamp e coordenador do Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes, a Amazônia concentra uma das maiores diversidades virais do planeta. “Desde o início da vida, onde há organismos vivos, há vírus”, explica o pesquisador. O problema surge quando o equilíbrio ambiental é rompido. “O desmatamento e outras formas de perturbação ambiental rompem barreiras ecológicas naturais que tradicionalmente limitam o contato entre humanos e os vírus silvestres”, alerta Modena. Esse cenário favorece o chamado spillover, processo em que vírus saltam de animais para humanos. Segundo o pesquisador, os maiores riscos estão nos vírus que infectam aves e mamíferos e nos arbovírus, transmitidos por artrópodes, como mosquitos e carrapatos. Veja mais notícias do Terra da Gente: Entre doces, flores e poesia: a história de Cora Coralina emociona gerações Pedra ligada à lenda da Pedra Filosofal brilhava sozinha no escuro; entenda o mistério Espécie rara: registros de papagaio-de-bochecha-azul chamam a atenção; conheça a espécie A BR-319 como laboratório natural BR-319 Foto: Reprodução/Rede Amazônica A BR-319 se tornou um ponto estratégico para os estudos porque atravessa regiões com diferentes níveis de preservação ambiental e ocupação humana. A estrada foi inaugurada em 1976, mas boa parte do trajeto permanece sem pavimentação. Ao longo dos anos, a abertura da via levou gado, atividades econômicas e novos assentamentos para áreas remotas da floresta. Veja o que é destaque no g1: Vídeos em alta no g1 A equipe da Unicamp investiga comunidades isoladas ao longo da rodovia e compara esses dados com regiões do sul do Amazonas e norte de Rondônia, onde o desmatamento e o crescimento populacional avançam rapidamente. “Nossas análises incluem amostras de roedores, que são potenciais reservatórios de vírus de alta virulência para humanos, como hantavírus e arenavírus, bem como diferentes espécies de insetos vetores”, explica Modena. Além de vírus já conhecidos, como Oropouche (OROV), Mayaro (MAYV), dengue e chikungunya, os cientistas também buscam identificar novos agentes virais. O alerta vindo do vírus Mosquito maruim, conhecido como mosquito-pólvora, é o principal transmissor da febre Oropouche Reprodução/Ministério da Saúde Para os pesquisadores, a recente expansão da febre do Oropouche ajuda a entender como alterações ambientais podem favorecer novas epidemias. Estudos filogeográficos indicam que a linhagem associada aos surtos recentes pode ter surgido após um evento de rearranjo genético ocorrido entre 2015 e 2016 em áreas degradadas do sul do Amazonas e norte de Rondônia. “Acredita-se que o vírus tenha permanecido circulando em comunidades mais isoladas até alcançar centros urbanos maiores, como Humaitá e Manaus”, afirma Modena. Depois disso, a disseminação ocorreu rapidamente para outras regiões do Brasil e da América Latina. Casos associados a viajantes também foram registrados em países da Europa e nos Estados Unidos. Segundo o pesquisador, o caso demonstra como vírus antes restritos à floresta podem ganhar escala global. A virada trazida pela metagenômica Historicamente, a ciência costuma agir de forma reativa, estudando doenças depois que elas já causaram surtos. Com o avanço das técnicas de sequenciamento genético e a redução dos custos dessas análises, a metagenômica passou a permitir uma vigilância mais ampla e preventiva. Registro de uma transmissão colorizada de numerosas partículas do vírus HIV replicando-se a partir de uma célula T. NIAID A técnica consegue identificar o DNA e o RNA de diferentes vírus presentes em uma única amostra, mesmo sem saber previamente o que está sendo procurado. Nos próximos passos do projeto, a equipe aplicará análises metagenômicas em amostras de roedores e mosquitos coletados em ambientes peridomiciliares, áreas de campo e trechos de floresta ao longo da BR-319. “Acreditamos que essa abordagem integrada tem potencial para ampliar significativamente o conhecimento sobre a diversidade viral na região e, eventualmente, permitir a identificação de novos vírus”, avalia Modena. Apesar disso, o pesquisador ressalta que ainda não há dados confirmando a descoberta de novos agentes com potencial de provocar surtos urbanos. Ciência, floresta e qualidade de vida Durante o trabalho de campo, os pesquisadores perceberam que a vigilância viral depende também das condições de vida das populações amazônicas. “Condições adequadas de renda, acesso à educação e serviços de saúde são fundamentais para que essas comunidades possam atuar como verdadeiros guardiões da floresta e da saúde coletiva”, afirma Modena. As equipes identificaram problemas recorrentes relacionados à água contaminada e à presença de roedores nas comunidades visitadas. Por isso, o projeto passou a incluir ações de extensão, como distribuição de filtros de água e oficinas de controle de roedores. Segundo os pesquisadores, integrar conservação ambiental, vigilância em saúde e desenvolvimento social pode ser essencial para reduzir o risco de futuras crises sanitárias originadas na floresta amazônica. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente